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Crítica

Alabama em chamas

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Duas misérias americanas estão no centro de Tudo pela Justiça: a insistência na pena de morte e a prevalência do racismo. Não são exactamente a mesma coisa, mas quando se juntam (e se torna, sobretudo em certos estados do Sul dos EUA, estatisticamente mais comum condenar réus negros à pena de morte) forma-se uma miséria maior. O filme de Destin Daniel Cretton aborda-a, a partir da história verídica, sucedida durante os anos 1980 no Alabama, de um homem negro (Jamie Foxx) condenado à morte por um erro judiciário ditado pelo preconceito. Cá fora do death row, um jovem advogado (Michael B. Jordan) que estava então a iniciar uma carreira especializada na reabertura e reavaliação de processos que culminaram na pena de morte, faz os possíveis e os impossíveis, durante anos, para levar o estado do Alabama a admitir que a incongruência das provas e dos testemunhos é suficiente para, no mínimo, repetir o julgamento.

O olhar do filme é quase (ou completamente) “didáctico”, opção porventura ditada pelo momento actual da vida americana, mas que tem o senão de parecer dirigida a pessoas que nunca pensaram dois segundos na iniquidade da pena de morte nem na hipótese de o racismo estar infiltrado (de forma quase “líquida”, quer dizer, acima dos indivíduos, que até podem eventualmente ser boas pessoas) no sistema judicial americano. Ao concentrar-se em expor isso, corporizado pelos entraves que a investigação de Jordan encontra, Tudo pela Justiça perde a possibilidade de ser um “melodrama de death row”, estudo de personagens (todas relativamente funcionais), ensaio sobre a culpabilidade e o castigo (até porque nunca há nenhuma dúvida sobre a inocência de Foxx). O que move o filme é a aventura judicial nos meandros do preconceito, e isso Cretton faz com certa solidez, mas também sem impedir uma sensação de déjà vu e de previsibilidade. A sequência mais estranha do filme é a da execução de um outro condenado negro, este confessadamente culpado: o modo como toda a gente a aceita, das outras personagens ao olhar do próprio filme, deixa um tom de ambiguidade, mais que certamente involuntária, na relação com a justiça da aplicação da pena de morte.

E tudo termina como um “triunfo da justiça”. Um homem perde anos de vida na prisão por um crime não cometeu, quase dá em doido com a iminência de se sentar numa cadeira eléctrica, e a conclusão que se tira é a de que a justiça até pode tardar, mas funciona. Um olhar mais cru chegaria à conclusão oposta, mas é no epílogo que ao didactismo se junta o optimismo activista (e quase elegíaco): a luta continua, porque simplesmente não pode deixar de continuar.

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