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Crítica

Corpos e almas

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Logo ao primeiro minuto de Uma Vida Escondida, reconhecemos a sensação de “baralhar e voltar a dar” que tem aguentado Terrence Malick ao longo dos seus últimos filmes — duas partes de câmara deslizante por paisagens de cortar a respiração, uma de banda-sonora lírica inspiracional, três de voz-off de sentimentos místicos, personagens em crise existencial que os impede de usufruir a vida. Mais do mesmo, então? Não exactamente: se Uma Vida Escondida prossegue a veia transcendentalista-espiritual das suas últimas (e para nós decepcionantes) obras, este é também o filme mais “acessível” e mais classicamente narrativo do realizador desde pelo menos O Novo Mundo. E também aquele onde a estética lírica de Malick faz perfeita justiça à substância do que ele contar.

À falta de melhor expressão, Uma Vida Escondida é um “caso da vida”. Na remota aldeia de montanha austríaca de St Radegund, durante a Segunda Guerra Mundial, um agricultor local, Franz Jägerstätter, recusa-se a prestar juramento de lealdade a Hitler ao ser convocado para o serviço militar obrigatório. Católico praticante, Jägerstätter não compreendia, nem podia aceitar, a demonização do “outro” e a obediência cega implícitas na ideologia nazi; a sua recusa de jurar fidelidade a Hitler era uma questão moral. Alguém que reconheceu o Mal antes dos outros todos e se negou a servi-lo, tendo pago com a vida e sido reconhecido pelo papa Benedito XVI como mártir da igreja. Malick quer contar a “via sacra”, o tormento quase crístico desta figura que se sacrificou por um padrão moral. Todos lhe dizem — família, amigos, mesmo os nazis encarregues de o julgar mas que não conseguem evitar uma certa admiração pela sua inteireza: “sabes que o teu sacrifício não vai mudar nada”. E, mesmo assim, Jägerstätter deixou-se levar para o cadafalso.

Estruturado em três actos — que não são mas podiam ser Paraíso, Purgatório e Inferno, e que ocupam aproximadamente uma hora cada das três que o filme dura — Uma Vida Escondida dá um corpo mais sólido às preocupações espirituais que têm vindo ao de cima na obra de Malick, ao colocar no seu centro a história de um homem comum que enfrenta questões, e circunstâncias, incomuns. A sinceridade de “coração nas mãos” do realizador leva-o a tropeçar numa série de obstáculos desagradáveis: ao contar a vida de Jägerstätter e da sua mulher nas idílicas paisagens de montanha como um estado paradisíaco num “jardim do Eden” protegido, Malick acaba por fazer do nazismo, mais do que uma ideologia a combater, um simples vilão de conveniência. Talvez porque o que lhe interesse seja menos o inimigo específico e mais o Mal como presença constante e inevitável.

Mas essa figuração abstracta, contraposta à especificidade do dilema moral de Jägerstätter e ao período histórico específico e documentado em que tudo se passa, acaba por desequilibrar o filme. Malick, já o sabíamos há muito, prefere deixar-se levar pelas paisagens, pelos movimentos, pelas emoções à flor da pele, e figura o nazismo mais como bullying moral aproveitado cinicamente pela maioria do que como tragédia que mudou um mundo. Isto não desfaz o que há de bom em Uma Vida Escondida (sobretudo uma primeira hora arrebatada ao nível do melhor que o cineasta já fez); e não deixa por isso de ser o seu filme mais interessante e conseguido desde A Árvore da Vida. É uma prova de que ainda há cinema em Terrence Malick; a alma está lá, falta-lhe o corpo.

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