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Crítica

1917: o travelling e a questão de moral

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Ficou célebre aquele artigo de Jacques Rivette nos Cahiers du Cinéma a propósito de Kapo, de Gillo Pontecorvo, e do seu travelling “imoral” que ignorava a dimensão humana da história que se queria contar em nome da precisão estética do plano. O que diria, então, Rivette de 1917 de Sam Mendes, filme que se estrutura como um imenso plano-sequência de duas horas que, em tempo real, acompanha dois soldados numa missão impossível durante a Primeira Guerra Mundial?

Antes do mais, há que dizer o evidente: 1917 é uma proeza técnica extraordinária, um impressionante triunfo de logística de produção. Não o é mais do que a Arca Russa de Sokurov ou Victoria de Sebastian Schipper (esses sim filmes de plano realmente único), mas isso não invalida a proeza. Há que esclarecer que, embora o filme seja rodado inteiramente em plano-sequência, não é um plano único de duas horas: há momentos em que um fade a negro ou uma parede ou um cobertor “escondem” o corte. Nesse aspecto, até é legítimo recordarmo-nos que, antes de Beleza Americana, Caminho para Perdição, Máquina Zero e os seus filmes Bond Skyfall e Spectre, Mendes era encenador de teatro. A necessidade do “tempo real” de 1917 — que acompanha uma missão suicida contra-relógio — implica uma encenação de marcações ou coreografias, ritmos e tempos geridos ao milímetro como numa produção de palco.

Ora, a ideia que Mendes tem para esta história inspirada no seu avô, que combateu na Primeira Guerra Mundial, não é despicienda: imergir o espectador na experiência da guerra, filmar “à altura de homem”. Até é nesses momentos que o filme se aguenta melhor: nos interlúdios de camaradagem humana, de memórias pungentes, de conversas sentidas. Quando a câmara se concentra nas personagens, deixa aos actores espaço para habitar estes corpos, 1917 promete o que não pode cumprir.

E não pode cumprir porque, às tantas, Mendes esquece-se das personagens para se deixar levar pela técnica. A câmara ergue-se acima dos seus heróis, voa por cima das trincheiras, distancia-se para mostrar a enormidade do campo de batalha que tem de ser percorrido. Ao fazê-lo, a câmara deixa de ser um soldado como os outros para se tornar omnipotente, omnipresente, e desfaz a suspensão da descrença. Deixamos de estar preocupados com a história dos cabos Blake e Schofield, passamos a admirar o virtuosismo dos movimentos de câmara. Não se põe em causa a sinceridade de Mendes, nem a excelência do trabalho de fotografia do grande Roger Deakins e da cenografia de Dennis Gassner — mas não é por acaso que 1917 seja um dos filmes mais nomeados para os Óscares deste ano. A Academia adora filmes que fazem um vistão e este enche os olhos. Jacques Rivette, esse, olharia para 1917 e desconfiamos que teria uma apoplexia — como se, todos estes anos depois de Kapo, não se tivesse aprendido nada.

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