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Crítica

O meu amigo Hitler

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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A priori, Jojo Rabbit era um pouco como o convidado-mistério dos Óscares deste ano, e depois de visto as razões do convite parecem ainda mais misteriosas. Seguramente o mais fraco dos nove títulos nomeados para Melhor Filme, Jojo Rabbit, sejamos francos e directos, é uma salganhada sem pés nem cabeça, filmada às três pancadas, cujo sinal mais distintivo residirá, porventura, na bizarria do seu argumento (de resto, outro objecto de nomeação pela Academia).

É que, não sendo a primeira “comédia de nazis” que a História regista (Jerry Lewis!), o filme do neo-zelandês Taika Waititi é duma inépcia tão grande, no tratamento da História (justamente), na redução da II Guerra Mundial a um conto de fadas narrado a partir do ponto de vista um garoto alemão totalmente “nazificado” (rumo à “conversão” ao bom caminho, obviamente), que se arrisca a ser não “politicamente incorrecto”, mas politicamente tonto — como se a II Guerra não tivesse sido também um confronto de ideias, e a ideologia nazi não tivesse passado de umas manias (aquela embirração com os judeus) de uns indivíduos que lá no fundo até podiam ser boas pessoas. O Hitler “imaginário”, interpretado pelo próprio realizador, que vem “conversar” com o miúdo protagonista e oferecer-lhe cigarros (logo Hitler, que era ferozmente anti-tabagista!), mostra bem o nível de palermice em que o filme se coloca, a coberto de boas intenções.

Mas quais boas intenções? Um grande abraço “inclusivo” à Humanidade no seu todo, a fazer dos nazis as primeiras vítimas do nazismo (como se comprova pelo percurso do miudo protagonista)? O filme acaba com uma citação de Rilke no genérico de fecho, mas nessa altura já só pensamos numa citação do Presidente Trump, aquela do “fine people on both sides”.

E pronto, ficamos assim, num III Reich de fábula e papelão a ver como um miúdo educado para o nazismo descobre que afinal a miuda judia que a mãe (Scarlett Johansson) escondeu em casa é afinal uma pessoa como ele, e por quem, inclusivamente, se pode apaixonar (isto é, uma vez esquecidas as milhentas piadas sobre judeus que “ambiente controlado” criado pelo filme permite debitar à tripa forra). Entendamo-nos: o nazismo é abordável como sátira, e Chaplin, numa altura em que ainda nem se sabia da missa a metade, começou logo por mostrar esse caminho. Mas, havendo assuntos mais sensíveis do que outros, alguns deles colocam com especial premência a questão do talento — no sentido em que para filmar o nazismo é preciso mais talento do que para filmar a preparação duns ovos mexidos. Waititi trata o nazismo como se tratasse de ovos mexidos, não parece ter talento para mais. Depois, naturalmente, dá disparate.

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