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Crítica

Fúria de viver

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Cada geração tem as Mulherzinhas que merece. Durante muitos anos classificado (com condescendência) como clássico da literatura “juvenil” ou “feminina”, o romance de Louisa May Alcott foi adaptado ao cinema em 1933 por George Cukor, com Katharine Hepburn e Joan Bennett; em 1949 por Mervyn LeRoy, com June Allyson, Elizabeth Taylor e Janet Leigh; e em 1994 por Gillian Armstrong, com Winona Ryder, Kirsten Dunst e Claire Danes, para já não falar das incontáveis versões teatrais ou televisivas.

No entanto, o que vale a pena aqui reter é que a história da chegada à idade adulta das irmãs March, equilibrando as dificuldades de sobreviver no Massachusetts em plena Guerra Civil Americana com as alegrias e entusiasmos de vidas que se começam a desenhar, tem mantido intacta a sua capacidade de ressoar ao longo das décadas. Que o mesmo é dizer: estas Mulherzinhas, entregues nas mãos da actriz e realizadora Greta Gerwig, em nada desmerecem das anteriores versões, abrindo até novas pistas de leitura ao “desdobrar” Jo March, a maria-rapaz de tendências literárias que serve de narradora, num espelho da autora Louisa May Alcott e do seu estatuto de mulher escritora no século XIX americano.

Nesse processo, que é parcialmente de “reabilitação” do livro como uma obra central na literatura americana tout court, Gerwig pinta o retrato de uma América ideal (mas não idílica), inclusiva, generosa — a América como ela sempre foi sonhada e desejada, apesar de todos os obstáculos. Isso torna esta versão num filme romântico por excelência, que mantém intactas as dores de crescimento das quatro (impecavelmente interpretadas) irmãs e todas as emoções dos primeiros amores, dos primeiros bailes, das primeiras viagens (fotografados por Yorick le Saux em tons quentes, calorosos). Mas que nunca se esquece de contextualizar o seu romantismo num momento difícil da vida americana (em cenas de um cinzento metálico, invernoso), apelando a uma grandeza e a uma abnegação que, mais do que idealistas, trabalham para um futuro melhor — corporizado nas ambições de Jo, a que Saoirse Ronan empresta uma transcendente fúria de viver.

É, aliás, por aí que estas Mulherzinhas se ganham: pela sensação extraordinária de vida que Gerwig dá ao filme, como se o espectador fosse apenas mais um habitante da casa dos March. Há uma discreta atenção aos pormenores, aos movimentos, aos gestos, aos sorrisos, aos olhares, ao modo como definem uma personagem que, a espaços, chega a comover. Como se actores, cenários, câmara, música tivessem todos encontrado o equilíbrio perfeito que transforma “ver” um filme em “viver” um filme; um qualquer estado de graça que torna esta história na nossa história, independentemente de género, tempo, sexo, fé, nacionalidade. Gerwig não o consegue sempre, mas consegue-o tantas vezes e com tal sensibilidade que isso faz de Mulherzinhas um pequeno milagre na paisagem formatada dos estúdios americanos, fazendo jus à tocha do logótipo da Columbia: é um farol do que o cinema, do que uma sociedade, pode, deve, tem de ser.

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