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Crítica

Cuidado, as crianças estão a ver

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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O lugar-comum da cidade como uma selva já pode estar gasto até à quinta casa, mas ainda é possível dar-lhe a volta. Basta para isso ir buscar o verdadeiro rei da selva, o leão, ou neste caso uma cria de leão surripiada de um circo por miúdos sem mais que fazer. É a partir desse episódio que Ladj Ly nos pinta 24 horas na vida de Montfermeil, o subúrbio parisiense onde Victor Hugo escreveu Os Miseráveis, mas que ao clássico da literatura francesa vai buscar uma aura mais do que pormenores específicos. Em vez disso, é da vida que Ly se alimenta — da sua própria vida como filho do bairro, da sua experiência nas ruas como filmeur de curtas-metragens e documentários, do que vê acontecer ao seu redor todos os dias.

Montfermeil, subúrbio problemático onde se cometeram todos os erros do urbanismo planeado francês, na prática um gueto onde são poucos os rostos brancos que vemos ao longo de quase duas horas; é uma personagem a tempo inteiro mais do que apenas um cenário. Ly introduz-nos na história sob a capa de um filme policial, com um detective recém-transferido a ser colocado com dois veteranos do bairro no seu giro diário pelas ruas (pensem em Dia de Treino), observando a disfunção reinante — a começar pelo chefe da sua equipa, granada à espera de explodir, abusando a qualquer altura dos seus pequenos poderes policiais como se fosse intocável, intimidando e abusando porque pode. Chris, o cowboy, é um de vários leões locais candidatos ao poleiro de “rei da selva”, que vão ser todos postos em jogo pelo incidente da cria roubada, desencadeando uma espiral de acontecimentos que corre o risco de fazer subir a pressão já de si elevada até uma explosão incontrolável.

A inteligência de Ly está em saber gerir essa espiral, em ir colocando as peças do puzzle no tabuleiro com assinalável savoir-faire, de maneira a que só já muito perto do fim se perceba a imagem. Que, sim, é uma imagem de um establishment em sobre-carga, onde toda a gente está a tomar conta de si próprio e dos seus, sem se preocupar com o que isso pode implicar para um equilíbrio social à beira da ruptura — é para isso que estão lá Issa, o ladrão do leão, e Buzz, o miúdo do drone, um actor e o outro testemunha de um drama que os ultrapassa e onde se joga o próprio futuro do subúrbio. Como dizia o velho filme de terror, “cuidado, as crianças estão a ver” — e num sistema onde os adultos não são capazes de encontrar uma solução que desarme as tensões ou que resolva os verdadeiros problemas do bairro, o que eles irão propor pode ser muito mais radical.

É na última meia-hora que Os Miseráveis resolve (admiravelmente) a imagem que veio a construir ao longo do filme, que se revela o alcance da visão de Ladj Ly sobre um mundo que conhece bem: o sistema não está a trabalhar para o futuro, mas sim para manter o insustentável. E há sempre uma cria de leão à espera que o rei da selva envelheça.

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