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Crítica

O desejo de ser “visualmente impressionante”

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O Farol, segunda longa-metragem de Robert Eggers, chega com um rasto razoavelmente extenso de estima crítica e auréola de filme de “culto”. Uma vista de olhos pelo que a “crítica internacional” tem escrito sobre ele encontra as mais assombrosas referências: vai de Murnau a Béla Tarr, passando por Dreyer.

Por alguma razão que não cabe aqui explicar, convocatórias deste calibre têm o condão de nos deixar mais receosos do que propriamente expectantes, é com um pé atrás que começamos a ver o filme de Eggers. Rapidamente percebemos o erro: deviam ser os dois pés atrás. O Farol é um objecto bastante grotesco, e pouco importa que deliberadamente o procure ser, algures entre a evocação arty de motivos visuais de antanho (da fotografia a preto e branco ao próprio formato da imagem, próximo do “quadrado” do tempo do mudo) e um onirismo, ou simbolismo, de tendência “erotizante” (a sereia, a gaivota, o polvo gigante), que lembra mais Lars von Trier ou Jodorowsky do que qualquer dos nomes acima citados — e de resto, nada no filme indica que Eggers nutra por eles alguma espécie de apreço ou devoção, tal a forma como se compraz em macaqueá-los como uma sobranceria quase destrutiva.

Ah, mas não é “visualmente impressionante”? Não, não é, falta-lhe a subtileza de não sublinhar o desejo de o ser a cada plano, de não transformar a iluminação barroca num acontecimento gratuito que chama a atenção sobre si própria sem estar ao serviço de nada a não ser, justamente, de uma “impressão visual”.

A narrativa, que envolve dois faroleiros numa ilha isolada na costa da Nova Inglaterra e tem uma remota origem numa história de Poe, fica irremediavelmente contaminada por este aparato: não há personagens, há bonecos, a espécie de ogre composta por Willem Dafoe (nunca o vimos tão cabotino) e o mais contido e calculisticamente submisso jovem faroleiro a cargo de Robert Pattinson, e é como se o filme nunca se aproximasse deles a não ser para os transformar em mais imagens “visualmente impressionantes” (os grandes planos do rosto contorcido de Dafoe são um bom exemplo).

Claro que será um sucesso, os tempos estão de feição para estes objectos que se pretendem passar por “viscerais” mesmo que tudo neles seja apenas “superfície”. Mas já agora, e para se dar alguma coisa em troca, mencionaríamos um curioso filme britânico (Bait, de Mark Jenkin), exibido no IndieLisboa do ano passado mas que ficou por estrear comercialmente em Portugal, onde a evocação fotográfica do mudo e dum cinema de “outro tempo” se cumpria com um sentido bem mais sério, e bem mais vasto, do que a espécie de onanismo estético com que Eggers se satisfaz.

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