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Crítica

A fé não está onde mais se espera

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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É altamente provável que Corpus Christi nunca chegasse às salas portuguesas se não estivesse nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não é novidade, está sempre a acontecer, mas não deixa por isso de ser irritante que continuemos a olhar para o cinema europeu com “etiquetas” ou “preconceitos” que fazem mais mal do que bem: faz-se muito mais e muito melhor cinema por esse mundo fora do que muito do que chega às nossas salas, que vem filtrado pelo ângulo dos prémios, dos festivais ou do puro mercantilismo. O caso da terceira longa do polaco Jan Komasa é significativo: a Polónia deu-nos cineastas francamente talentosos cujas carreiras foram sendo acompanhadas regularmente, de Andrzej Wajda a Krzysztof Kieslowski (para não falar de Polanski), mas agora é preciso a bênção de uma nomeação para o Óscar para alguém sequer ligar.

Isso não abonaria necessariamente em favor do filme. No papel, Corpus Christi tem tudo para ser uma daquelas “histórias de vida” que comovem a Academia de Hollywood — inspirado num facto verídico, conta o caso de Daniel, um jovem em liberdade condicional que sonha ser padre, mas cujos antecedentes criminosos impedem a entrada num seminário. Mas que, confundido com um padre, acaba por substituir o pároco doente numa aldeia.

O que há de interessante no filme de Komasa não é a sua adesão à convenção do impostor que dá por si levado pelos acontecimentos, mas sim o modo como a utiliza para falar da religião e da fé. Como o pároco doente diz, “há aqui muitos frequentadores mas poucos crentes, e muita gente que só vem à igreja para que os vizinhos não falem deles”, e a aldeia está ainda “em carne viva”, sob o choque de uma tragédia da qual ninguém fala mas que Daniel vai deslindando aos poucos. Sob a capa da fé e da devoção, Corpus Christi está realmente a falar da hipocrisia e da fachada, das relações entre o poder e a razão, perguntando constantemente de que serve acreditar num Deus aparentemente injusto quando tanta gente parece distorcer a Sua mensagem em proveito próprio.

“É uma parábola,” diz alguém já perto do fim; é uma parábola, sim, não apenas da religião mas também da sociedade (e todos sabemos como a igreja tem um papel central na sociedade polaca). E uma parábola à qual Bartosz Bielenia, como Daniel, empresta o corpo habitado, (literalmente) sacrificial, do “forasteiro” que carrega a sua devoção com mais fé e entendimento do que os supostos devotos da aldeia; e uma parábola que não enjeita usar os lugares-comuns da fórmula para depois os contornar quando mais é preciso.

Não se descobre nada de especialmente novo ou original em Corpus Christi, é verdade. Mas reconhece-se um filme sólido, inteligente, bem feito, bastante superior aos filmes de uma Malgorzata Szumowska ou de uma Agnieszka Holland (únicas cineastas polacas que continuamos a ver com alguma regularidade), e que faz uma rima curiosa com a Vida Escondida de Terrence Malick: a fé não está onde mais se espera que ela esteja.

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