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Crítica

Entre o melodrama e a soap, o esgotamento

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Depois da estreia americana no seu filme precedente (A Morte e a Vida de John S. Donovan, um melodrama pesadão e indistinto a que ninguém ligou grande coisa), Xavier Dolan volta ao Canadá natal para Matthias e Maxime. O resultado é ligeira e quase microscopicamente melhor, mas a indiferença que o filme suscita é quase da mesma ordem — falamos por nós, mas também pela reduzidíssima atenção internacional que mereceu, sobretudo quando comparada com a que os filmes de Dolan mereciam durante aquela breve janela em que foi uma coqueluche dos festivais (e que lhe valeu, em Cannes, ser posto ex-aequo com Godard).

Se Dolan sempre nos pareceu um caso flagrante de sobrevalorização, a crueldade com que o “circuito” internacional faz e desfaz ídolos ameaça atirá-lo para o polo oposto. É por isso que Matthias e Maxime, sendo um falhanço, nos parece um falhanço quase simpático, e sobretudo honesto enquanto reiteração discreta (como um filme de “série”) daquilo que esteve sempre na raiz do cinema de Dolan. Uma observação, a partir de elementos razoavelmente “sirkianos”, das classes médias do Quebec, e das tensões no seu interior, quase sempre encenadas a partir da repressão sexual.

Neste filme, a história de Matthias e Maxime, dois amigos de longa data que um dia, no meio da “normalidade” que os circunda, descobrem (ou torna-se-lhes evidente) a existência de uma atracção erótica mútua. Carregam-na como uma cruz invisível e interior durante grande parte do filme, que vai dividindo o seu tempo entre os percursos de um e de outro (com especial atenção a Matthias, o mais “normal”, o mais sofredor). Com um pé no melodrama e outro na soap opera, traço característico e minimamente curioso de Dolan, ganha a soap opera por manifesta falta de força expressiva do melodrama — força visual ou força verbal, em cenas arrastadas e diálogos cansativos onde a psicologia das personagens, menos do que ser exposta, é sublinhada. Ainda mal chegou aos 30 anos, mas Dolan já parece um cineasta esgotado, reduzido a versões cada vez mais pobres dos seus “greatest hits”.

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