Menu
Crítica

Queres ser Glauber Rocha?

Autor da crítica: Jorge Mourinha

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Não é um filme novo em termos de actualidade — como nenhum dos documentários que o Trindade está a apresentar durante Setembro — mas não importa que Anabazys tenha data de 2007 e já tenha sido exibido em Portugal em sessões pontuais e ciclos específicos. Não importa mesmo nada, porque, primeiro, o grande cinema é sempre novo mesmo quando não é de agora, e porque, segundo, Glauber Rocha (1939-1981) não perdeu um átomo da sua urgência, da sua veemência, do seu turbilhão avassalador de ideias e acções em constante diálogo e contradição.

Anabazys não é um filme de Glauber Rocha mas podia ser; entregue à sua própria voz e à daqueles que o conheceram ou com ele trabalharam, é uma colagem/montagem de imagens de arquivo, muitas delas inéditas, muitas delas “sobras” ou cenas não utilizadas no seu filme-testamento A Idade da Terra (1980). É um filme “à la Glauber”, se quisermos, mas é, sobretudo, um espantoso testemunho do cineasta em acção: alguém que não apenas não renegava as suas contradições como as abraçava, um cineasta incapaz de desentrelaçar o pessoal e o social, o político e o filosófico, o eu e o nós.

Anabazys interessa-se sobretudo pelo longo processo de criação e produção de A Idade da Terra, filme-limite na charneira do experimentalismo, happening desafiadoramente não-narrativo pensado como súmula da geleia geral tropicalista mas também ponto zero da explosão das pontes que o realizador ainda tinha com o seu país natal. Produção complicada, quase improvisada, dois anos de montagem e uma péssima recepção na sua estreia a concurso em Veneza (apesar das felicitações de Michelangelo Antonioni e Alberto Moravia), é um filme que ainda não foi devidamente reavaliado/redescoberto.

Paloma Rocha, uma das filhas do realizador, e Joel Pizzini tiveram acesso aos rushes e às sobras da rodagem e usam-nas para desenhar um retrato com muito de impressionista do cineasta ao trabalho, revelando Glauber como uma mente fervilhante que tem o filme todo na cabeça, cuja força centrífuga atrai, arrasta e impele todos aqueles que o rodeiam. Anabazys são 100 minutos dentro da cabeça de um dos maiores cineastas do mundo e só isso chega para o recomendar efusivamente.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA