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Crítica

O prazer foi todo nosso, comandante Bond

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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É um número bonito, 25, e é um número redondo. É também o número de Sem Tempo para Morrer na “série oficial” iniciada em 1962 das aventuras de James Bond, agente dos serviços secretos de Sua Majestade Britânica com licença para matar, da qual Daniel Craig se despede agora depois de ter reinventado Bond como uma personagem mais complexa e humana. E 25 é também um bom número para pôr fim ao 007 que conhecíamos, tal como o conhecíamos — Sem Tempo para Morrer começa com Bond reformado e com o seu número de código atribuído a uma nova agente, antes de uma nova trama diabólica que ameaça o mundo tal como o conhecemos o puxar de regresso à acção.

Craig queria abandonar de vez a personagem (como Sean Connery o quis fazer no seu tempo), e o modo como o faz é radical, ainda por cima numa franchise que serviu de “ponta de lança” para muito do cinema de grande espectáculo que veio depois. Nas mãos do americano Cary Joji Fukunaga, esse adeus começa como uma selecção enérgica de greatest hits reconfigurados da série (a tradicional sequência pré-genérico é um filme inteiro em si mesma, e um belo filme por sinal). E vai metamorfoseando-se, progressivamente, em algo de mais sério: um filme de acção consciente de si mesmo e de todo o passado e presente que transporta, do que representou e representa ao longo dos últimos 60 anos de história. Mesmo que essa consciência seja por vezes sisuda em demasia (com 2h45 de duração, é o mais longo Bond de sempre, e a duração não é realmente justificada) e ocasionalmente desastrada (ai Rami Malek, que triste desculpa para vilão).

O que aqui temos, então, é um “longo adeus” que vai buscar muito ao “Bond maldito”, Ao Serviço de Sua Majestade, filme que procurou “humanizar” a personagem e que foi a única experiência do australiano George Lazenby no papel. O “mote” de Sem Tempo para Morrer (mais do que a esquecível canção-tema de Billie Eilish) é aliás We Have All the Time in the World, o êxito que Louis Armstrong criou naquele filme de 1969. E é um longo adeus que questiona a própria existência de uma personagem como James Bond num tempo em que o que os estúdios querem é super-heróis e constantes reboots e “reimaginações”. Sem Tempo para Morrer não fecha a porta a isso, mas este é o fim de uma era. 007, tal como o conhecíamos, acaba aqui. O que vier a seguir não será, nunca, o mesmo. Mas o prazer foi todo nosso, comandante Bond.

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