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Crítica

Um pecado

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

Excluindo os sinais mais evidentes da tecnologia moderna (como os planos de drone, essa praga digna dum Deus do Antigo Testamento), Fátima é um filme que podia ter vindo, estética e ideologicamente, dos anos 50 — mas mesmo os filmes dos anos 50 sobre o mesmo assunto, como o The Miracle of Our Lady of Fatima de John Brahm (1952), que usava Fátima como peça do puzzle anti-comunista que o “mccarthyismo” promovia em Hollywood, podiam ser abençoados por uma imaginação kitsch, o que está longe de ser o caso aqui. Fátima revê e reproduz todos os clichés associados às aparições de 1917 com a mesma convicção com que um filme “oficial” do santuário de Fátima o faria.

A chave é a “fé”, a “crença”, terminologia que o filme usa como argumento definitivo, ponto final na discussão a partir do qual não há mais conversa possível. Como se vê nas cenas que estruturam o relato, e que mostram uma conversa entre um investigador céptico (Harvey Keitel!) e a velhinha Irmã Lúcia (Sónia Braga!!), e onde a senhora discute com a fluência e a articulação de uma intelectual saída de uma pós-gradução em teologia, algo que, salvo melhor informação, corresponde muito pouco ao que sabemos da ex-pastorinha. Podia ser, noutras mãos (mas os acontecimentos de Fátima ainda estão à espera de mãos de cineasta), um exame ou uma demonstração das formas da religiosidade popular, mas o realizador chama-se Pontecorvo, não se chama Pasolini, e parece aliás ter saído muito pouco ao pai Gillo (ainda e sempre um nadinha injustamente associado quase só ao travelling de Kapo).

Pelo contrário, é um olhar profundamente austero sobre a religião, dada como um conjunto de regulamentos e de prescrições cujo incumprimento deixaria Deus muito zangado (o plano em que uma lágrima de Nossa Senhora cai ao chão e, por raccord, se converte num cogumelo duma explosão nuclear), e onde a diferença entre uma existência religiosa e uma existência não religiosa se resume à capacidade (ou à vontade) de acreditar em milagres. Daí que o filme, que já nos tinha posto a pensar na sabedoria de certas religiões que proibem a figuração dos seus profetas (pobre Joana Ribeiro, que Pontecorvo põe na pele de Nossa Senhora), seja uma longa preparação para o clímax extático do “milagre do sol”, a que imediatamente se segue, como legenda de posfácio, uma frase de Einstein que quer dizer tudo e o seu contrário (“pode-se viver de duas maneiras: como se nada fosse um milagre e como se tudo fosse um milagre”) e que bem podia ser substituída por uma célebre expressão de outro grande intelectual do século XX, Cole Porter, que sabiamente propôs que “anything goes”. Com o seu jeito de telefilme daqueles que cortados às postas depois também dão uma “série”, Fátima é apenas um grande pecado cinematográfico.

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