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Crítica

As aventuras das Doce num país amargo

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Bem Bom é, resumidamente, a história das Doce, o primeiro grupo do seu género a existir neste país, e das pinceladas de cor (real e metafórica) que trouxeram ao Portugal cinzento da viragem dos anos 1970 para os 1980. Também era o tempo do princípio da televisão a cores em Portugal, e o filme de Patrícia Sequeira, numa das suas sequências mais interessantes, evoca o modo como a participação do grupo no Festival da Canção de 1980, uma das primeiras emissões coloridas no período experimental, foi pensada ao pormenor para tirar proveito disso – para depois começar a levar com o ricochete dos “sectores conservadores”, escandalizados com quantidade de pele à mostra, ainda por cima a cores (hoje, como o sugere a vaga polémica das últimas semanas sobre uma assistente do Preço Certo, seriam provavelmente os “sectores progressistas” os indignados, o que também indica que em 40 anos o país mudou muito sem deixar de estar mais ou menos no mesmo sítio).

Narrativamente, Bem Bom resolve cedo a contradição fundamental das Doce: são uma invenção de dois homens (Tozé Brito e Mike Sargeant, embora, salvo erro, o filme não os nomeie categoricamente), que calcularam aquela banda, de certa forma cruzando a tradição dos grupos de miúdas negras de Detroit (como as Supremes) com 50% dos Abba (que estavam então no seu auge), pensando também no “exploitation” erótico que podia sair dali, e são um símbolo, um dínamo, para a “nova mulher portuguesa” de meia dúzia de anos depois do 25 de Abril. As raparigas, no filme, percebem o que os homens querem fazer com elas e por que o querem fazer, da “composição” pictórica (“tem que haver uma loura”) ao guarda-roupa que as obrigam a usar. Mas também percebem que, no fundo, está tudo nas mãos delas — a voz é delas, a figura é delas — e assumem-no com convicção. A pedrada no charco, são elas que a atiram.

Isso, a convicção daquele quarteto, bem expressa pela energia das quatro actrizes principais, é o que Bem Bom resolve de forma mais feliz. Mas depois tem alguns problemas – eventualmente, com raiz no argumento – que o deixam uns furos abaixo de outro filme recente sobre uma figura da música que, mais ou menos no mesmo período, veio também agitar o “charco” português (falamos do Variações, de João Maia). É que, em Bem Bom, justamente, falta ver-se o “charco”, falta sentir-se o ambiente do Portugal da época – sabemos que ele é “opressivo”, mas porque as personagens o comentam, sabemos que as Doce causam escândalo mas nunca se vê o escândalo, sabemos que elas trazem uma ruptura qualquer mas nunca se vêem os efeitos dessa ruptura, nem em quê. Falta ao filme “país”, falta ao filme “época”, falta ao filme a capacidade para fazer “sociologia narrativa” — e talvez por isso, in extremis, ele dê uma importância desmesurada ao famigerado e horroroso boato que afectou um elemento do grupo, como exposição do complexo machista-racista do Portugal de 1980 (mas, mais uma vez, não o vemos, são as personagens que têm que o verbalizar, quase como se se virassem para a câmara e o explicassem ao espectador).

Portanto, Bem Bom resulta num filme competente, possuidor de alguma nada despicienda energia, mas que se satisfaz demasiado, e demasiado depressa, com a condição de “revival” semi-nostálgico dos primeiros anos de 1980, a reconstituição das actuações e canções das Doce a serem o seu nec plus ultra em vez de serem o caminho, ou o pretexto, para qualquer coisa de mais amplo e de cinematograficamente (já para não dizer politicamente) mais interessante.

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