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Crítica

Conto mais ou menos gótico de Verão

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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François Ozon, um dos mais prolíficos e erráticos realizadores da actualidade, aponta aqui ao coração da nostalgia. Está tudo logo no título (e no genérico inicial acompanhado por uma canção dos Cure), mesmo que o ano da acção não seja especialmente importante: podia ser 75 ou 95 e tudo se passar mais ou menos da mesma forma — embora se reporte claramente a um tempo ainda sem internet, telemóveis e redes sociais, quando os adolescentes podiam ser mais afectados pela descoberta de um poema de Verlaine do que pela última sensação do Instagram ou quejandos. É portanto um “conto de Verão” (e Melvil Poupaud, protagonista do filme de Rohmer que nos anos 90 se chamou assim, figura no elenco, na pele de um professor de literatura), que fala de um “verão azul”, mas um verão azul escuro, tingido por um negrume vagamente gótico.

Muito vagamente, e essa é a principal causa da insatisfação que o filme deixa. Tudo nele é bastante vago, como se Ozon quisesse resgatar a leveza despreocupada da adolescência, vista a uma luz nostálgica (quer dizer, semi-mitificada), temperá-la com uns pozinhos de angst e poesia fin de siècle (é uma história de amor e morte, paixões transgressoras, descoberta da sexualidade, Rimbaud e Verlaine), mas nunca acertasse com o tom certo, e tudo se perdesse em meras sinalizações de uma força dramática e emocional que não se materializa.

Um bom exemplo é a cena — que devia ser um climax — em que o protagonista finalmente dança em cima da campa do amigo/namorado morto, ao som da canção que passa nos seus headphones, o Sailing de Rod Stewart, cena a que Ozon, por mais movimentos de grua que invente (a câmara também “dança” sobre o rapaz que dança), não consegue imprimir qualquer vestígio daquilo que aparentemente procurava (uma conjugação do dramático e do patético).

Tudo fica vago, meias tintas, como uma versão light do já de si bastante light filme de Luca Guadagnino, Chama-me pelo teu Nome (e Verão de 85 lembra tanto esse filme que parece aquilo a que os anglófonos chamam um rip off), o espectador é cedo lançado no torpor da indiferença, de que só desperta — assim assim — quando os Cure voltam a aparecer para acompanhar o genérico de fecho.

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