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Crítica

Singularidades de um realizador sueco

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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“A vida é feita de pequenos nadas”, como diz a canção de Sérgio Godinho, e Roy Andersson fez o seu nome com um cinema meticuloso, cheio de burlesco desesperado em câmara lenta, com vontade de dissecar até ao tutano esses “pequenos nadas” para mostrar como tudo se pode esconder lá dentro. O cinema do sueco, que acaba de ser alvo de retrospectiva na Cinemateca Portuguesa, e sobretudo a sua Trilogia dos Vivos formada por Canções do Segundo Andar (2000), Tu que Vives (2007) e Um Pombo Pousou num Ramo a Reflectir na Existência (2014), é um gosto adquirido onde o humor ganha uma dimensão trágica, existencial — e esse existencialismo dá uma volta inteira sobre si mesmo antes de regressar à secura de um absurdo que acaba por só poder dar vontade de rir. Que o mesmo é dizer que o seu processo de criação cinematográfica — uma paciente colagem solta, lassa, de histórias de palhaço triste, rodadas com actores não-profissionais em ambiente controlado de estúdio — exige disponibilidade da parte do espectador, e que os embates tanto mais serão frutíferos quanto melhor se conhecer a obra e mais vezes se virem os filmes.

É um método que alcança um ponto-limite em Da Eternidade, que saiu de Veneza 2019 com o prémio de melhor realização e parece comprimir e distilá-lo à uma essência quase irredutível. Inspirado (ao que diz o próprio realizador) nos contos das Mil e Uma Noites, o novo filme é de facto o menos dramaturgicamente linear de uma obra que nunca primou pela narrativa; uma colecção de aforismos visuais sobre as pequenas humilhações do quotidiano, com um padre em crise de fé como principal personagem recorrente. Não é só por aí, mas também ajuda, que este nos pareça o seu filme mais espiritual, espécie de aplicação do princípio Malickiano da dúvida e do arrebatamento ao dia-a-dia de uma sociedade cinzenta, prisioneira de códigos e rituais sociais — ou não fosse a imagem-chave do cartaz a de um casal que sobrevoa em sonhos uma capital devastada, como Adão e Eva encarregues de repovoar um mundo destruído.

Não é provável que Andersson tivesse previsto o estado do mundo em 2020 mas é verdade que o apocalipse e o desespero já eram temas recorrentes — e faz sentido que isso venha apenas ainda mais ao de cima nesta sexta longa, o seu título mais depurado, mais rente ao osso, onde já nem há uma pretensão de lógica narrativa mas apenas uma sucessão de sketches ou não-gagues que parecem provar a absoluta vitória do vazio; a solidão cósmica do homem num universo que em nada o ajuda. Mas, para lá dessa depuração, a verdade é que Da Eternidade delimita igualmente de maneira bem mais nítida os limites do seu território — sem se comprazer na complacência de uma fórmula, mas preferindo refinar o o que já se conhece em vez de desbravar novos caminhos. Nada de mal com isso; e, no fundo, apenas confirma Roy Andersson como um cineasta que se recusa a abdicar da sua singular e teimosa individualidade. Com plena consciência da tal solidão cósmica, e também da necessidade de rir dela — de preferência enquanto se chora.

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