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Crítica

As sombras e as mulheres

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O Sal das Lágrimas, continuando o carácter quase “serialista” que a obra de Garrel tomou nos últimos anos, instala-nos cedo em território reconhecível por quem tenha acompanhado os filmes imediatamente precedentes do realizador. Numa Paris filmada num preto e branco “carbonizado” (os operadores vão mudando, neste caso é o grande Renato Berta, mas o contraste mascarrado mantém-se), seguimos então a evolução de uns quantos jovens em idade ainda longe da definição adulta. São estudantes, vivem de pequenos empregos ou empregos nenhuns, as condições socio-económicas precárias das personagens, como habitualmente, estão subjacentes sem precisarem de sublinhados, e dir-se-ia que também é da regra que parte do “sal das lágrimas” dos filmes de Garrel passe igualmente por aí. No centro, um rapaz, aprendiz de marceneiro, um pouco (ou muito perdido) no seu próprio labirinto afectivo, a deixar um rasto de destruição emocional à medida em que passa pelas vidas de umas quantas raparigas — incluindo a destruição emocional dele.

Por alto, não são precisos mais pormenores para dar o núcleo narrativo do filme. O que conta é a afinação que Garrel imprimiu ao seu método, aquela espécie de frieza no olhar sobre as personagens que se calhar é apenas uma forma de objectividade, que elide as motivações para ficar apenas com os comportamentos e as consequências — e se há alguma voz off no filme, na perspectiva do protagonista masculino, essa voz tende a obscurecer mais do que o que clarifica o que quer que seja. Garrel filma com as cores do luto, de um luto rasgado, e talvez por isso, subliminarmente, o espectador sinta sempre a iminência da morte, de uma desolada fatalidade, de um gelo súbito, a pairar sobre as personagens (a banda musical original, neste caso de Jean-Louis Aubert, reforça isso). É de onde vem o poder, por exemplo, daquele momento que se tornou um típico “momento Garrel”, a cena em que as personagens dançam ao som de uma canção pop (dos Téléphone), cena sublime em todas as acepções da palavra, e onde há menos “nostalgia” do que uma espécie de oração pela fugacidade da juventude (e se tudo se torna misteriosamente comovente é porque Garrel capta essa fugacidade às mil maravilhas). Mas desta vez há mesmo uma personagem que transporta a sombra da morte. É o velho fabricante de caixões (fabuloso André Wilms), pai do protagonista ou, hipótese que não excluímos, verdadeiro protagonista (des)encontrado numa deambulação entre “presença” e “ausência” que se vai tornando central. E no último terço do filme (quando, a partir da cena em que o rapaz persegue uma rapariga na rua, o mais estranhamente violento momento de O Sal das Lágrimas, tudo fica mais áspero e mais abissal), esse pai converte-se mesmo no principal motor emocional (o seu olhar, ou a falta do seu olhar) do rapaz protagonista — como o último plano, e a última fala da voz off, duma brusquidão inacreditável, confirmam. O Garrel “do costume”, dirão; certo, mas, como de costume, um filme soberbo. 

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