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Crítica

A culpa do cineasta branco brasileiro

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Muito do cinema brasileiro contemporâneo — julgando, pelo menos, a partir do que por cá se vai vendo — interroga a identidade e as origens do país, e a cultura, mais ou menos mitológica, que à sombra dum entendimento institucionalizado dessa identidade foi florescendo. Compreende-se bem: há anos que o Brasil é uma das principais arenas do grande conflito mundial dos nossos tempos (o confronto entre grandes movimentos progressistas e reaccionários), e tal interrogação, em tudo e por tudo o que implica, é um tomo crucial desse confronto. Não é, no entanto, um fenómeno novo, e sem entrar por outras áreas da cultura brasileira (como a literatura), vale referir que boa parte do “programa” do cinema novo brasileiro passava por interrogações (ou mesmo acusações) semelhantes.

Nada mais natural, portanto, do que as vénias que Um Animal Amarelo presta a esse cinema, e o modo como denota a influência, ou pelo menos a inspiração, de objectos como o Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade ou certos filmes de Glauber Rocha. Mas tudo parece reiterativo, mero update para a sensibilidade sociológica do século XXI e para as recentes condições políticas (naturalmente, a chegada de Jair Bolsonaro). O registo de farsa “antropológica” domina o filme, alimentado menos por alguma revolta destrutiva do que por um mais compreensível (e mais explicado, mesmo sobre-explicado) sentimento de culpa — é a culpa do “homem branco brasileiro”, como a narração off insistentemente cataloga o protagonista, culpa representada pelo “animal amarelo” que o acompanha num nível de realidade paralelo, e a culpa do “cineasta”, actividade do protagonista, que num jogo especular (Felipe, realizador / Fernando, personagem) constrói dentro do filme um duplo auto-punitivamente sofredor da figura do realizador. Ronda-se um niilismo e uma impotência — tudo é inútil, incluindo o cinema — superadas in extremis, de modo um tanto beatífico, pelo plano final do cosmos e o desejo expresso de que o universo “recomece” (um pouco mais de sobriedade materialista oporia a esse desejo a noção de que, em recomeçando, o universo se comportaria exactamente da mesma maneira).

Se em breves momentos — algumas cenas no Rio, sobretudo — o registo de farsa encontra maneira de funcionar eficazmente, as sequências moçambicanas e lisboetas são pouco menos do que penosas, assentes em caricaturas étnicas e sociais (de personagens e de situações) que nunca têm a força nem a consistência necessárias para se tornarem arquetípicas, e que parecem estar sempre a pedir a cumplicidade do espectador. O que é um ponto-chave para o fracasso do filme: o seu traço é tão grosso que não provoca nenhuma inquietação. Um Animal Amarelo, como o seu protagonista, deseja apenas o reconhecimento, uma forma qualquer de aprovação. É como um filme de Glauber penteadinho e bem arranjado para se apresentar em festivais, de preferência em sessões “com debate”.

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