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Crítica

Isabelle Huppert: a pequena coleccionadora de fogos-de-artifício

Autor da crítica: Vasco Câmara

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É uma versão “benigna” do filme-veículo. Não aquela em que toda a empresa se funda no ego de um actor por exemplo (seria essa a “malignidade”), mas aquela em que a persona do actor engrandece a actividade, dá-lhe razão de ser, é a sua nobreza. Estamos a falar de Isabelle Huppert e de Agente Haxe, de Jean-Paul Salomé (La Daronne, no original).

É uma comédia cuja promoção no mercado francês, onde ajudou a acordar a actividade cinematográfica paralisada pelos confinamentos de 2020, foi acompanhada por um eloquente resumo: “50 por cento polícia. 50 por cento traficante. 100 por cento pura”. Nestas coisas da publicidade o double entendre é o segredo do sucesso, mas seguindo um dos sentidos das informações contidas nessa promo, esse é então o retrato de Patience Portefeux, uma tradutora franco-árabe que trabalha para uma brigada antidrogas em Paris (escutando e traduzindo os planos dos traficantes) usando a sua própria história pessoal e familiar. Que vai servir também de trampolim para Patiente se meter, pelo menos com um pedaço, a tal metade, de si, no outro lado da lei.

Patiente Portefeux — que nome este, que indicação de natureza ardente! — é a última das danças e desconstruções com que Isabelle Huppert, sensivelmente a partir de A Pianista (Michael Haneke, 2001), tem trabalhado a consciência dos “seus” temas, consciência e património esses que, induzidos pela actriz nas suas personagens ou requeridos pelos projectos que lhe chegam, têm dado forma a uma espécie de “política de actor”.

A comédia ou o burlesco, pela coreografia, pela abstracção, prestam-se a esse exercício. Agente Haxe é uma comédia, como o era Madame Hyde, de Serge Bozon em 2017. Mas um action movie extático, como Ela, de Paul Verhoeven (2016), permitia também uma bela coincidência entre os motivos de um realizador e os da sua actriz. A saber: a força imparável de um imaginário, a sua solidão também, a resistência oferecida por essa singularidade, tudo à margem do social e do político.

Se quisermos, há uma “cena” fundamental na “obra” de Huppert, que não é necessariamente a primeira mas que, pela veemência com que falou de uma vontade e de uma poética pessoais, se podemos assim dizer, ficou marcante e tem hoje a força das revelações: aquela, em Violette Nozière (1978), de Claude Chabrol, em que à (anti-)heroína é anunciado que, condenada à morte aos 18 anos por parricídio, vai ser guilhotinada; Violette/Isabelle leva então a mão ao pescoço, assunto que a preocupa: perdeu o fio. De alguma forma esse alheamento salva-a. Há um momento, em Agente Haxe, em que a personagem interpretada por Hippolyte Girardot (o chefe hierárquico da personagem de Huppert e também o seu affair sem futuro, porque é um momento de passagem, de esquecimento, tudo nele é demasiado fraco para o que se mantém acordado na agente Haxe), lhe diz: “J’ai l’impression que tu n’es pas lá, tu est ailleurs, pas ici avec moi”. O que é uma forma de continuar a descrever o romantismo da persona de Huppert, em nova declinação do seu “bovarismo”: “Tenho a impressão que não estás aqui, estás ausente, não estás aqui comigo”. E também diz tanto sobre Patience Portefeux como sobre uma parte considerável da colecção de retratos da actriz esta inscrição que é referida às tantas em Agente Haxe a propósito de uma fotografia da sua personagem quando jovem: “a pequena coleccionadora de fogos-de-artifício”.

Perguntarão: Agente Haxe/La Daronne é tudo isto? Não, não é. Mas é suficientemente dócil para permitir que seja também isso. E que a coleccionadora de fogos-de-artifício reivindique aqui, ainda que sempre diluída no grupo, sem excessos de individualismo, traço que a marca, reivindique aqui, dizíamos, o seu pequeno espectáculo.

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