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Crítica

Night de um dia difícil

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

“Passa-se alguma coisa com o tempo!”, grita uma personagem numa altura em que há uma boa meia-hora já toda a gente, incluindo o mais obtuso dos espectadores, percebeu que se “passa alguma coisa com o tempo”. Não é o único problema de Shyamalan, nem será porventura o mais grave, mas é um problema que se arrasta de filme para filme e chateia bastante, desde o início: a sua profunda incapacidade para pressupor que o espectador é uma criatura dotada de inteligência. E, como acontece geralmente com filmes que o tratam como idiota, o espectador sente-se idiota em Presos no Tempo, sem perceber se isto é uma caricatura ou é para levar a sério, se há um “segundo grau” ou se é mesmo um filme mentecapto. Depois, desistindo de procurar sinais que anunciem ou denunciem a caricatura e o “segundo grau”, conforma-se com a ideia de que isto é para levar a sério e é mesmo um filme mentecapto. Infelizmente, quando isso acontece ainda sobra meio filme — e não, não fica melhor.

Presos no Tempo é o maior desastre de Shyamalan desde aqueles saudosos tempos do Último Airbender e de After Earth. Durante alguns minutos, ainda se saúda o facto de ter largado o universo chatíssimo do par de filmes precedentes (Fragmentado e Vidro), mas não se perde pela demora. A premissa (tirada a uma BD europeia) podia ter alimentado uma série B de Val Lewton, por exemplo, na sua confluência de realismo e inexplicado — mas isso seria seco, directo e romântico, três características que Shyamalan, meloso, adepto do rodriguinho e possuidor de uma sensibilidade de moralista de paróquia, não tem.

Um grupo de pessoas, num resort, é conduzido a uma praia onde começam acontecer coisas “estranhas”. Há de tudo: um casal em crise (Gael Garcia Bernal e Vicky Krieps, o par central), um médico de meia idade casado com uma instagramer, um rapper, etc, e as respectivas crianças. São todos muito estúpidos e desinteressantes — o que é, aliás, uma das razões, juntamente com as coisas bastante idiotas que as personagens dizem, para o espectador pôr a hipótese da caricatura, de isto ser Shyamalan a fazer “comentário social” sobre a classe média americana. E até pode ser, mesmo não fazendo diferença nenhuma, visto que o próprio realizador se filma como personagem “castigadora”, é o cameraman que vigia a experiência científica que decorre na praia (os adultos começam a envelhecer e as crianças a crescer em poucas horas), como se quisesse mostrar que entretanto já viu o Peeping Tom de Michael Powell (há uns anos, numa entrevista, perguntavam-lhe pelo filme e ele não fazia ideia do que era). A estupidez das personagens, e algumas cenas que estarão entre as mais awkward do ano (a rapariga que há cinco minutos era uma criança e logo a seguir aparece grávida, a mulher a quem retiram um tumor e, zás, trás, pás, “já me sinto melhor”!), esburacam completamente a possibilidade de isto ser (como aliás já lemos na “crítica internacional”) um raccourci poético da existência humana (género “meditação sobre o envelhecimento” e sabe-se lá mais o quê), assim como anulam a possibilidade de isto funcionar como algo próximo do teatro, uma abstracção enformada pela consciência do tempo (enfim, há uma certa diferença entre Shyamalan e Beckett).

Resumindo: um dos filmes mais grotescamente estúpidos de todos os tempos, mesmo contando com os precedentes contributos de Shyamalan para esse campeonato.

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