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Crítica

Quatro actrizes em busca de um filme

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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No prólogo de A Flor, o realizador Mariano Llinás aparece a “explicar” o que pode ser explicável do seu filme, e acaba dizendo que, na verdade, o seu filme é capaz muito mais de ser sobre as actrizes que escolheu para o interpretar. Quatro actrizes que vão rodando papéis nos seis episódios que o compõem: Elisa Carricajo, Laura Paredes, Pilar Gamboa e Valeria Correa.

É isso, aliás, que se sente ao longo de todo o filme — os seus planos longos sobre os rostos das suas actrizes, como se o filme não existisse senão por elas e para elas. Digamos que, como carta de amor é difícil arranjar melhor: treze quase catorze horas de filme, rodadas ao longo de uma década pelo meio de outros projectos, o tempo e a experiência a decantar-se ao longo de seis histórias que foram rodadas cronologicamente — isto é, a primeira antes da segunda antes da terceira etc.

E não, antes que a/o leitor/a pergunte, não há aqui erro absolutamente nenhum. Sim, A Flor dura 13 horas, 13 horas e 28 minutos para ser mais exacto, e quando Mariano Llinás a revelou ao mundo queria que fosse uma experiência restrita ao espectador disposto a vê-la num cinema. Nos seis anos decorridos desde a sua estreia, Llinás colocou A Flor gratuitamente no YouTube durante o pico da pandemia (não vale a pena irem à procura, já lá não está) e houve também pelo menos uma edição francesa em DVD — talvez para evitar que A Flor se perdesse na vertigem, e na voragem, de um mercado cada vez mais engarrafado mesmo ao nível do cinema de autor. Mas certamente também para responder à curiosidade sobre um objecto que sai de tal modo fora dos cânones convencionais do cinema narrativo que é impossível não querer perceber o que se passa ali.

O que se passa ali, diga-se, não é de todo “inacessível” ou “difícil”; este não é um filme opaco, apesar das tendências meta-ficcionais que manifesta. Não só no modo como as actrizes olham repetidamente para a câmara, mas também na própria sensação de que todas as personagens sabem que estão “dentro” de uma história, conscientes da sua dimensão ficcional — para já não falar no quarto episódio, onde se dá precisamente largas a essa sensação. É, antes, uma obra profundamente cinéfila, no simples prazer de contar histórias (mesmo que elas nem sempre comecem ou acabem…), através de convenções de género que são respeitadas e invertidas. Talvez pela proximidade latina, Raul Ruiz e Jorge Luis Borges têm sido repetidamente citados a propósito de A Flor, como pela duração desmesurada nos lembramos de Jacques Rivette — mas todos eles eram cineastas amantes da narrativa.

Mas, acima de tudo, há as actrizes, como já dizíamos, e o enorme amor de Llinás por elas, colocando-as em confronto, desafio, jogo umas com as outras. O título, A Flor, vem da “forma” como Llinás organiza o modo como as histórias (não) se articulam, numa forma próxima da flor. Mas e se viesse da “flor” que Llinás oferece, com este filme, a Elisa Carricajo, Laura Paredes, Pilar Gamboa e Valeria Correa? É por isto que este e um filme de “quatro estrelas” — uma por cada uma destas magníficas actrizes, uma por cada ramo da flor.

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