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Crítica

O respeitinho é muito bonito

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Ponto prévio nº 1: Aretha Franklin é deus.

Ponto prévio nº 2: O verdadeiro filme biográfico de Aretha Franklin — entendendo-se por isso o filme que melhor retrata e define o ser de Aretha — é o sublime registo do seu concerto de gospel em Los Angeles, Amazing Grace, onde tudo o que fez dela quem era estava à vista de todos, vulnerável, inteiro.

Não é por acaso que este biopic da cantora, que se concentra nas primeiras duas décadas da sua carreira, escolhe terminar precisamente nessa actuação de 1972, que deu origem ao que é discutivelmente o seu melhor trabalho em disco. O percurso que Respect conta é o de uma filha de pastor baptista, criada na igreja, senhora de uma voz fenomenal, e do modo como o “espírito” que essa educação lhe infundiu foi sempre “estrela polar”, de uma ou outra maneira, da sua carreira. Aretha tinha consciência do seu talento e um lado ferozmente competitivo: por trás da sua aparência inicial de flor de estufa, queria ser “a rainha” da soul, queria o respeito do pai que a queria controlar com pulso de ferro, das irmãs com quem tinha relações de amor-ódio, dos homens que nunca estavam à sua altura.

Por isto tudo, Respect parece um produto da América contemporânea — uma história de vida contada segundo os parâmetros “revisionistas” do novo feminismo, realizada e escrita por mulheres, narrando a luta de uma mulher para se impor no meio patriarcal da música negra (é significativo que todos os seus conflitos sejam com homens — o pai, o marido, os editores). Mas poderá ser mais uma coincidência do que outra coisa: porque o argumento da dramaturga Tracey Scott Wilson é bastante fiel à biografia da cantora, e porque o projecto era já anterior à morte de Franklin, em 2018, que chegou a estar envolvida na preparação e escolheu pessoalmente Jennifer Hudson (Dreamgirls) para o papel principal.

Hudson apanha bem as arestas rombas da personalidade da cantora, conhecida como diva difícil e mercurial, mas o seu esforço de performance é permanentemente visível — estamos sempre a ver Jennifer “a fazer de” Aretha, até mesmo na voz ( é a própria actriz a cantar durante todo o filme). E a sul-africana Liesl Tommy, com larga experiência de televisão, dirige tudo com um funcionalismo anónimo e confortável: parece que, apesar de se estar a contar a história de uma mulher que se impôs por si própria e com dificuldades, o filme está sempre a tactear com pezinhos de lã e muito respeitinho à volta da personagem, sem nunca fazer grandes ondas.

Traduzindo: Respect vê-se bem, está cheio de boa música e bons actores. Mas falta-lhe o rasgo que o erga acima da mediania; está mais próximo da Aretha dos anos Columbia, certinha e impessoal, do que da Aretha imparável dos anos Atlantic, com a alma a transbordar.

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