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Crítica

Deixa estar, Nick, é Miami

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Lisa Joy escreveu o guião de Reminiscência faz agora uns aninhos largos, quando estava grávida, para passar o tempo enquanto estava fechada em casa (vem numa entrevista ao New York Times). Tirem-se as conclusões que se quiserem deste fait-divers, mas uma colisão entre um filme negro à antiga e uma fita de ficção científica futurista, por muito inspirada que seja, vai sempre bater na pedra-de-toque Blade Runner, que praticamente codificou essa lógica. Felizmente, Joy não tem o mínimo problema em assumir a comparação, e de um ponto de vista puramente visual aguenta-se à bronca: a sua Miami semi-submergida, dividida entre as “terras secas” da gente rica e as “terras húmidas” da gente pobre, é um achado conceptual, que ainda por cima também aguenta a comparação com outras fitas distópicas recentes como a Terra dos Mortos de George Romero, o Relatório Minoritário de Steven Spielberg ou as Southland Tales de Richard Kelly.

 O que Joy coloca a correr neste cenário já não é tão inspirado — ou, antes, opta por se ater às convenções do noir hardboiled tal como codificadas na literatura por Raymond Chandler ou Dashiell Hammett e no cinema por filmes como À Beira do Abismo, Chinatown ou L. A. Confidencial, com o herói detective a ser arrastado por uma mulher fatal para uma conspiração que envolve um vilão urbanizador e polícias corruptos, etc., etc.

Talvez fosse pedir demais esperar que a veterana argumentista de televisão, criadora de Westworld (e cunhada de Christopher Nolan), quisesse inventar demais na sua primeira longa. Mas se não se encontra em Reminiscência muito de verdadeiramente novo (e às tantas parece que a trama está a começar a engonhar para cumprir as duas horas de duração), também não se poderá negar que tudo é feito com apreciável confiança e desenvoltura (as cenas de acção estão particularmente bem filmadas) e que Joy tem na solidez de Hugh Jackman o herói ideal para a sua história.

Reminiscência não reinventa a roda, mas os apreciadores dos géneros em questão não darão as duas horas por mal passadas.

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