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Crítica

Pai e filho

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Para muitos, Viggo Mortensen é ainda o Aragorn do Senhor dos Anéis, mas quem acompanhe o seu percurso por filmes de David Cronenberg ou Lisandro Alonso sabe que estamos perante um dos mais inteligentes actores contemporâneos. Não é por isso surpreendente que a sua estreia na realização seja a “contracorrente” da produção dos nossos dias; o que surpreende é o olhar de director perfeitamente formado revelado por esta história de família disfuncional transfigurada pelo tempo e pela idade. No caso, o que a idade trouxe a John e, em menor escala, à sua irmã Sarah, filhos de um casamento infeliz entre pais, que pareciam pertencer a mundos muito diferentes mas que, mesmo por pouco tempo, foram capazes de se amar e de construir o seu próprio mundo comum. E o que a idade tirou a Willis, o pai viúvo e irascível que se agarra teimosamente a uma visão do mundo parada na América do pré-Vietname.

Nada disto é simples ou linear, e Mortensen não está interessado em simplificá-lo. Falling — Um Homem Só é um filme construído e desconstruído em camadas, flutuando entre passado e presente ao sabor de gestos, memórias, momentos, flashes que de repente evocam a pai e filho regressos à vida de antes, num fluxo contínuo onde tudo se confunde. O pai não está em condições de continuar a viver sozinho na quinta, mas também não quer mudar-se para Los Angeles; o filho não está com vontade de se tornar no cuidador oficial do pai, e não quer abandonar a vida que construiu. Falling oscila entre o porquê da relação difícil entre ambos e as tentativas de a ultrapassar porque, afinal, pai há só um. Não demoniza um nem ergue aos píncaros o outro, preferindo penetrar nas zonas de sombra: na vulnerabilidade ocultada de um pai que cresceu a achar que ser homem era isto, na incompreensão por vezes intolerante de um filho que nunca se sentiu reconhecido.

Mortensen dá o filme de bandeja a Lance Henriksen, que conhecemos da série Alien (mas também do Homem Morto de Jim Jarmusch) mas que tem aqui o papel da sua vida como Willis, perante o qual todo o restante elenco modula com atenção as suas performances — como quem assume que perante tal pai (e tal actor) é impossível querer sequer brilhar. É apenas mais uma prova de como a elegância discreta, a modéstia quase brutal de Falling o tornam num filme ainda mais precioso e vital em dias como estes, em que tudo se parece reduzir à franchise pré-formatada, ao remake tópico ou ao “auteurismo” vão. Falling não é nada disso: é apenas um muito bom filme.

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