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Crítica

O tumor e o tédio

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Ser derivativo é uma característica intrínseca do género do terror. Mesmo a pré-história do género está marcada pela citação e pela parasitação — por exemplo, quando se pensa que o Nosferatu de Murnau é uma apropriação, e “clandestina”, do Drácula de Bram Stoker. Também é a graça do género ser uma eterna combinação ou recombinação de códigos e figuras, pelo que a distância entre o filme de terror e a sua própria paródia (como bem interpretou Wes Craven na série dos Screams) tem tendência a ser ínfima.

O que tem menos graça é quando essa distância não é reconhecida, e os códigos, os chavões e os estereótipos nos são servidos com a pretensão da “primeira vez”, da originalidade, da recusa da aceitação da paródia. Costuma sair uma sopa de pastiche aguada mas cheia de entulho, e é o que acontece em Maligno filme em que o espectador não tem muito mais para fazer a não ser ir enumerando mentalmente as “referências”. Olha o Shining. Olha o Argento. Olha o Takashi Miike. Olha o Cronenberg. Olha tudo e mais alguma coisa. Está lá tudo.

Maligno não é um filme, é um contentor, um contentor cheio de peças para exibir num museu do cinema de terror. Só que depois quer funcionar narrativamente, ter um “primeiro grau”, achar que é um filme de “medo”, convencer-se (e convencer-nos) que há alguma coisa de perturbante neste seu olhar em puzzle sobre o horror “orgânico” (digamos, para simplificar, que o vilão do filme é um tumor). E esse nível, o nível que está para além da “instalação”, é pessimamente resolvido, porventura revelador dos limites de James Wan, cineasta capaz de fogachos visuais (simultaneamente imaginativos e pueris) mas incapaz de subverter clichés narrativos (antes os aceita a todos, da forma mais monótona possível). Um grande tédio.

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