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Crítica

Excaliburro

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Os últimos dois filmes de David Lowery, A Ghost Story e O Cavalheiro com Arma (e sobretudo este, homenagem a dois “velhos” do cinema americano, Robert Redford e Sissy Spacek), puseram-no no lote dos novos cineastas americanos, em acção na “cena” independente ou semi-independente, merecedores de serem seguidos com um mínimo de atenção. Também eram dois filmes completamente diferentes um do outro, e nada havia de A Ghost Story no Cavalheiro, indiciando que Lowery habita ou constrói um imaginário novo para cada filme. O que se confirma em A Lenda do Cavaleiro Verde, que também não tem nada dos filmes precedentes e se apropria de um imaginário radicalmente diverso: o mundo das lendas Arturianas, adaptando um poema do século XIV, Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, centrado nas aventuras de um sobrinho do Rei Artur que por uma mistura de inconsciência e vontade de afirmação parte em demanda de um medonho “cavaleiro verde” (que parece criado pela mesma equipa de efeitos dos Piratas das Caraíbas).

Logo à cabeça (e não é trocadilho, mesmo considerado que essa parte da anatomia humana é especialmente importante no filme), há uma coisa que Lowery nunca resolve bem: o tom. Há uma ironia desagradável do princípio ao fim do filme, desagradável por parecer estar sempre a cutucar o espectador e a pedir-lhe a cumplicidade, ou a chamar-lhe a atenção de que “isto”, como todas as alegorias, é para ser “lido”, e de muitas maneiras possíveis: a história de um garoto mimado a querer provar valentia de adulto, numa espécie de versão negativa dos filmes de super-heróis, ou uma expressão da “crise da masculinidade”, pela forma como o bravo cavaleiro é manipulado por todas as mulheres que encontra, da mãe às amantes. Esta espécie de riso constante que se pressente a corroer a narração faz com que pensemos mais numa variação (aborrecida, desprovida de loucura e nonsense) sobre o Cálice Sagrado dos Monty Python do que numa homenagem, por exemplo, ao Excalibur de John Boorman (já para não falar de outras abordagens recentes da mitologia medieval e dos romances de cavalaria, como Honra de Cavalaria de Albert Serra ou Le Monde Vivant de Eugène Green, que são filmes de outro campeonato, até na relação com os textos, algo que no filme de Lowery é completamente despiciendo).

A Lenda do Cavaleiro Verde, basicamente, resume-se a um exercício de mímica, que encena os códigos de um universo mítico e/ou literário sem nenhum real interesse por eles, nem nenhuma boa ideia para os trabalhar de forma que ultrapasse uma vagueza que possibilite todas as “leituras” e todas as “interpretações”. De resto, é preciso dizê-lo, para além de não se passar nada de muito interessante na mise en scène de Lowery, a fotografia é feiíssima, como um mergulho deliberado no cliché (as cortes escuríssimas, os exteriores pardacentos) que depois não tem artes para subverter, afundando tudo numa “cortina” de cinzentos azulados que pede meças ao pior gosto dos piores filmes de super-heróis. Portanto, o aborrecimento torna-se mesmo, à medida que o filme se aproxima do fim, bastante penoso. E assim rebenta, parece, a bolha de David Lowery.

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