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Crítica

O sonho comanda o cinema

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Por esta altura já ninguém espera nada de um novo filme de Woody Allen, que se limita a gerir na medida do possível uma carreira que entrou em velocidade de cruzeiro algures entre os “serviços mínimos” essenciais e o rasgo ocasional. A melhor opção à entrada para um novo filme seu é, mesmo, não esperar nada: assim, ao menos, ainda nos podemos surpreender quando há razões para isso. Rifkin’s Festival cumpre os serviços mínimos durante a maior parte da sua hora e meia, e inscreve-se na linhagem “turística” da sua obra (Vicky Cristina Barcelona, De Roma com Amor, Meia-Noite em Paris), regressando a Espanha para situar o filme no festival de San Sebastián (para o qual, aliás, se aproxima perigosamente de uma reportagem promocional…).

É também daí que surge o gague recorrente do filme: os sonhos de Mort Rifkin, o escritor falhado e antigo professor de cinema que é aqui o alter ego Alleniano (interpretado pelo grande Wallace Shawn) e está de visita ao festival com a esposa assessora de imprensa. Com a ajuda preciosa de Vittorio Storaro, Allen encena cada um dos sonhos como uma homenagem/pastiche a clássicos do cinema — O Mundo a Seus Pés, Jules e Jim, O Acossado, Persona, O Sétimo Selo, O Anjo Exterminador… — numa espécie de bem-humorado “catálogo comentado” das suas próprias referências cinematográficas, mesclado de uma melancolia bafienta mas sincera de velho do Restelo. (E mais uma revisão dos Morangos Silvestres, essa outra referência que Allen já tinha citado directamente em As Faces de Harry.)

É por aí — e por esse amor exposto de maneira vulnerável mesmo que risonha — que Rifkin’s Festival mantém o interesse. E a sua trama ostensiva de um velho intelectual nova-iorquino que ainda sonha com a possibilidade de um onírico affaire europeu serve de reflexo da própria relevância de Allen no mundo contemporâneo (e, significativamente, trata-se mais uma vez de uma produção europeia, visto que o realizador continua a ser persona non grata na indústria americana). Essa consciência do seu estatuto actual resgata Rifkin’s Festival da irrelevância, mas não chega para o erguer acima da indiferença de ser “apenas” o “Woody Allen do ano”.
 

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