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Crítica

100% Mosca

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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A principal diferença entre este semi-decepcionante Mandíbulas e o filme anterior de Quentin Dupieux, 100% Camurça (o filme responsável por nos fazer entrar em Mandíbulas com expectativas imprevidentemente elevadas), está na natureza do gadget que divide o protagonismo com as personagens humanas. Em 100% Camurça era um objecto corriqueiro, um casaco, que nem por ser 100% feito de camurça deixava de ser vulgar de Lineu, e a progressiva irrealidade do filme era uma “coisa mental”, nada e criada na mente da personagem de Jean Dujardin. Em Mandíbulas, o objecto que vem fazer vacilar a realidade (ou o realismo) é, ele próprio, “fantástico”: uma mosca gigante, que dois amigos apalermados descobrem no porta-bagagens do carro e decidem amestrar por vislumbrarem no insecto um manancial de utilidades (“pode ser como um drone”, diz um). Embora o filme demore um bocado a arrancar, entretido a apresentar-nos o seu par de protagonistas, dois espertalhões idiotas que vivem de biscates à margem da lei, nesse momento em que a mosca faz a sua aparição chega a haver alguma espécie de promessa: por hipótese, a promessa de um encontro entre o Dumb & Dumber dos irmãos Farrelly e o Festim Nu de Cronenberg (e Burroughs), perspectiva perante a qual chegamos a sentir um certo entusiasmo. Mas, infelizmente, não, não é nada disso, ou é muito pouco disso. A mosca, se permite um ou dois gags com piada, permanecerá na clandestinidade, os dois amigos têm que a manter escondida para não serem postos fora da agradável casa de férias para onde são convidados por equívoco (um deles é confundido com um velho amigo da rapariga proprietária, como um doppelganger fortuito num filme que, aliás, “duplicará” mais personagens).

Dupieux contém o potencial delirante da sua ideia num regime de serviços mínimos e foca-se antes num registo de comédia, muito maneirinha, fundada na idiotice dos seus protagonistas e na excentricidade dos coadjuvantes (a personagem de Adéle Exarchopoulos, que fala aos berros por causa de uma lesão neurológica, é a que o filme explora mais). O registo de comédia quase silenciosa, que não sublinha os gags nem as punchlines, é simpático, mas também é curto e a certa altura parece que o filme se vai improvisando a si próprio, como se Dupieux tivesse uma boa ideia para arrancar mas depois passasse o resto do tempo à procura de uma ideia para terminar. Donde, apesar dos vários momentos em que o espectador ri com gosto, a impressão geral de inconsequência, bem longe da maquinaria psicológica demente que animava 100% Camurça.

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