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Crítica

Que viva México

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Os primeiros planos (Clint Eastwood ao volante da sua pickup) são quase um raccord com The Mule, o último filme (pelo meio houve O Caso Richard Jewell) em que o autor se dirigiu a si próprio. Mas a pickup tem companhia nesses planos introdutórios, a de belos cavalos selvagens que correm ao seu lado, cavalos que depois voltarão em vários momentos do filme, em imagem recorrente mesmo se não chega a ser um leitmotiv. Maneira de apresentar a personagem de Clint, certamente, antiga vedeta do circuito dos rodeos, um passado assinalado por imagens de arquivo que podiam ser as mesmas de Lusty Men de Nicholas Ray (e para adensar os círculos, registe-se: o romance que Cry Macho adapta foi publicado nos anos 70, a sua adaptação já tinha sido proposta a Clint nessa época, e ele terá sugerido que o papel fosse entregue a Robert Mitchum, protagonista do “rodeo film” de Ray). Mas maneira, também (e continuamos a falar dos cavalos selvagens), de sugerir uma ideia de liberdade, liberdade ansiada e liberdade praticada.

Porque Cry Macho, glosando uma célebre expressão, é “um filme de um homem livre”. Um cineasta livre, em primeiro lugar.
A singularíssima estrutura (e singularíssima “temperatura”, também) da narrativa do filme guarda as suas surpresas, mesmo para quem conheça bem a obra de Clint: a “acção” sempre abreviada, quase apressada, uma introdução ao assunto tão rápida e directa que parece que a sua personagem está a lidar com espantalhos de cartolina (poucas personagens secundárias “existem”), rumo a um final tão pacífico, e tão rápido, que parece a negação da regra que manda toda a dramaturgia caminhar para um clímax. O que importa, aqui, é o meio, o longo intermezzo com as personagens de Clint e do miúdo semi-mexicano semi-americano (que Clint foi resgatar para trazer ao pai texano) atascadas numa aldeola mexicana, onde pura e simplesmente o “intervalo” é assumido e esticado até mais não (lembra um pouco, salvaguardadas todas as distâncias, o Sonatine de Kitano) e o que fica é uma espécie de postal de amor ao México, à cultura mexicana, à comida mexicana, à música mexicana (o bolero preferido do nosso Fernando Lopes: Sabor a Mi), à paisagem mexicana, às mulheres mexicanas. Não espanta (e a próxima frase é meio spoiler) que, no final, depois de a personagem de Clint não voltar a cruzar a fronteira com o Texas, tudo acabe outra vez no México, entre “cantinas”, doñas e o mesmo bolero.

Um filme livre sobre a liberdade como produto de uma escolha. “Quando se percebe é tarde demais”, diz o diálogo do filme em que Clint mais se põe na pele do “velho”. O destinatário da observação é o garoto que a personagem foi resgatar, e a relação entre os dois, género mentor e discípulo (e às vezes de cumplicidade como num buddy movie), faz de Cry Macho o que há de mais parecido com um The Kid (bom, há o caso de Um Mundo Perfeito, mas aí Clint interpunha Kevin Costner entre ele e o garoto). O Macho do título é um galo treinado para lutas, e uma das funções do “mentor” é tirar da cabeça do miúdo a atracção pelo “machismo” (“olha que é isso tudo muito sobrevalorizado”, “ a coragem é outra coisa”, uma espécie de moral que só surpreenderá, de resto, os especialistas em ideias feitas — “Clint é fascista” — que pululam nas redes sociais). Depois, a ironia, rápida e abreviada como tudo neste filme: na cena seguinte, o nonagenário e o garoto precisarão do Macho para os salvar da única real encrenca em que a história os envolve.

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