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Crítica

O último samba antes do covid

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Os jardins do Palácio do Catete, o antigo palácio presidencial no Rio de Janeiro, são agora um palco para velhos cantores amadores, “seresteiros”, darem largas às suas paixões musicais. Foi neste jardim que Sérgio Tréfaut, de regresso ao documentário depois de Treblinka e de Raiva, encontrou um Paraíso. Em parte, é o paraíso das memórias pessoais, como a legenda inicial, mencionando o tempo em que o realizador viveu no Rio, menciona. Em parte, é um paraíso, sem nenhuma ambiguidade, como um pedacinho de espaço arrancado à grande metrópole, com ritmos e tempos muito próprios e aonde aquelas pessoas vão inventar uma espécie de liberdade. E, em parte, é um paraíso em sentido melancolicamente irónico, pelo seu carácter excepcional no caos carioca, pela situação política, e pela ameaça (ainda desconhecida dos intervenientes) da pandemia de covid (a rodagem de Paraíso terminou no princípio de 2020, portanto ao cabo de um ano e tal de Bolsonaro e escassas semanas antes da explosão do “novo coronavírus”).

Com uma estrutura simples e contemplativa, o filme deixa-se embalar pela música dos seus cantores e instrumentistas. É um documentário musical na verdadeira acepção do termo, seguindo na íntegra diversas actuações, todas ou praticamente todas por artistas já de uma certa idade. Às vezes, durante as canções, a montagem procura os rostos e as reacções da audiência (composta também por pessoas de uma faixa etária avançada, algumas delas à espera de ocupar o lugar no centro do palco improvisado), assim reforçando, pela familiaridade que certos rostos vão criando com o espectador, uma impressão de retrato de uma comunidade. Outras vezes, os artistas depõem para a câmara, contando histórias das suas vidas, alegrias e tristezas. Através dos depoimentos, é um pouco de outro, e mais amplo, Brasil, que fica esboçado, mas sobretudo um pouco de outro tempo — que algumas canções abordam com um humor docemente reaccionário (como aquela canção em que uma senhora declara ter “pena” das “mulheres modernas”, que recusam a “sensualidade” que há num “homem bruto”). A concentração espacial do filme favorece o embalo do espectador, que depressa se sente à vontade naquele pequeno casulo. Mas, volta e meia, o timing da rodagem, anunciado no início do filme, salta ao espírito, e é então é como se descesse um frio súbito: o espectador lembra-se de que, por muito agradável que seja o que está a ver, o que está realmente a ver são os últimos tempos antes de uma tragédia. E, quando o filme acaba, com a indicação expressa da morte de participantes, que víramos alegremente a tocar e a cantar, durante a pandemia de covid-19, é uma sensação de perda o gosto final de Paraíso.

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