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Crítica

Os sacrificados

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Depois de ter abordado o populismo de direita em Esta Terra é Nossa, o belga Lucas Belvaux atira-se às feridas da guerra da Argélia nesta adaptação de um romance de Laurent Mauvignier. O melhor de Coisas de Homens é a sua inteligente estrutura narrativa, que parte do tempo presente para construir aos poucos, por acumulação quase impressionista, um mosaico de vivências e episódios. No centro estão dois primos que partilharam o serviço militar na Argélia, e as sequelas da guerra que deles fizeram quem são hoje. O filme começa numa festa de aniversário onde velhos rancores vêm ao de cima, para depois a história ir rodando por múltiplos narradores que, cada um à sua vez, insere uma peça que clarifica os eventos.

No entanto: há tanto para contar (e para “significar”) em Coisas de Homens que o filme não sustenta tanta carga, abandonando pelo caminho as suas personagens, resolvendo a história de maneira demasiado abrupta, “despachada”, como quem se viu com guitarra a mais para tão poucas unhas. Catherine Frot é um mero “macguffin” sem espessura para espoletar a intriga, enquanto Gérard Depardieu e Jean-Pierre Darroussin, os primos desavindos, se tornam meros secundários perante os actores que os interpretam em jovens (sem desprimor para Yoann Zimmer e Édouard Suplice). Temos pena que Coisas de Homens se perca desta maneira, porque há uma evidente inteligência narrativa a funcionar no filme, e Belvaux quer realmente explorar a complexidade quase irreconciliável destas personagens. Mas sobra apenas a sensação de um filme que ficou por fazer, sacrificado no altar do compromisso entre o que se quis e o que se pôde, desperdiçando material e actores.

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