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Crítica

Nossa Senhora dos mass media

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O que em France mais surpreende, e quase choca, o espectador conhecedor da obra de Bruno Dumont é a forma como o filme, desde o princípio, nos atira para um universo até hoje estranho ao seu cinema (a televisão, a “democracia mediática”) e o faz através de uma saturação de sinais da “contemporaneidade”. Não é necessariamente inédito: pensamos em Hadewijch, filme que associava uma preocupação central de Dumont (a atracção pela santidade, para o dizer simplesmente) a um fenómeno marcadamente “contemporâneo” (o terrorismo de inspiração islâmica), mas nem isso se compara ao modo como as coisas se passam em France. Sirva de exemplo logo a sequência inicial, que tem como “actor secundário” nem mais nem menos do que Emmanuel Macron, e é tão bem feita que durante alguns minutos nos interrogamos se foi conseguida à custa de um exercício brilhante de montagem, ou de uma extrema sofisticação do “deepfake” digital, ou mesmo de uma participação especial do actual Presidente da República de França.

Desde essa sequência inicial que France incorpora o falso na sua textura, como se quisesse plasmar a linguagem televisiva — e pensamos que quer, através de pormenores que serão demasiado desconcertantes sem essa explicação: da fotografia, que está inundada daquele chapadão de brilho com que é iluminado um telejornal, por exemplo, a uma lógica narrativa que, sobretudo na parte final, parece funcionar através dos ingredientes de um folhetim televisivo. A falsidade é o reino de France, título um pouco óbvio mesmo se apenas retoma o nome da personagem principal, uma vedeta da informação televisiva interpretada por Léa Seydoux (já o nome completo da personagem tem mais que se lhe diga: France de Meurs, que tanto joga com o verbo “morrer” como foneticamente se confunde com “moeurs”, “costumes”, a “França dos costumes”, e ambas as alusões, à morte e aos costumes, fazem um sentido irónico). Uma parte do filme insiste, e talvez em excesso (porque não é uma ideia revolucionária, enfim, já nos anos 50 Billy Wilder fazia filmes sobre o assunto) na descrição da falsidade mediática, através das reportagens de France, junto de terroristas do Norte de África ou de migrantes do Mediterrâneo, reportagens onde ela se comporta exactamente como uma realizadora de cinema e todas as suas preocupações são preocupações de “mise en scène”. A televisão tornou-se uma espécie de cinema, um lugar do artifício dado como verdade — eis a tese (e outra vez, dificilmente nova) do comentário mediático de France.

Mais original é a descrição de uma personagem que está dentro desse aparelho como dentro dum sistema religioso. E ao choque com a realidade (literalmente: um pequeno acidente de trânsito com um motociclista de entregas ao domicílio) sucede-se uma pequena crise de fé que conduz à tentação da apostasia. É provavelmente o segmento mais fascinante de France, aquele em que a personagem de Léa Seydoux, tomada pela culpabilidade, “adopta” o motociclista em convalescença e a sua família de pobres imigrantes marroquinos.

A ambiguidade de Dumont (muito bem sustentada por Seydoux) cria sempre uma cortina para a psicologia da personagem, é impossível distinguir a que ponto aquela “crise de fé” é, ainda, mise en scène, mise en scène para as revistas cor de rosa e cálculo para a sua gestão de carreira. Mas é o momento em que a atracção pela santidade mais habita o filme, provavelmente num eco (trata-se de um cineasta, e de um filme, claramente na órbita de Dumont) do Europa 51 de Rossellini.

Outra ideia que nos passa pelo espírito, face às tragédias que vão abalando a vida da sempre luminosa France, é que ela seja uma espécie de Dorian Gray, uma mulher tornada imagem enquanto algures se esconde o seu retrato disforme. Há um momento do filme que procede ao encontro entre imagem pública e personalidade privada, através de um lapso técnico na régie do estúdio de TV que faz entrar sobre as imagens da peça noticiosa o som das conversas entre France e a sua assistente — momento sempre escandaloso, o da sobreposição de público e privado. Em todo o caso, para France, e ao contrário de Joana d’Arc, as fogueiras são sempre virtuais e nunca definitivas, e ela continuará até ao fim, com uma determinação de mártir, a envergar o estatuto de uma santa moderna, uma santa da televisão, uma santa dos mass media, ideia cuja ambiguidade talvez perca fulgor na relativa dispersão com que Dumont a trata (sobretudo na segunda parte do filme) mas que conserva, até ao fim, um poder intrigante e interpelador: este é um filme que fala de nós, Europa 2021.

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