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Crítica

Pai e filha

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Enquanto realizador, Sean Penn tem manifestado um interesse recorrente pelo reverso da medalha da sociedade norte-americana, por aquilo a que chamaríamos as “personagens secundárias” que o cinema dos anos 1970 trouxe para primeiro plano. Recorde-se que, já em 1991, a sua estreia na realização, The Indian Runner, se inspirava numa canção de Bruce Springsteen, “bardo” de uma certa “América pequena” onde a vida vai acontecendo quase sem dar por isso. Flag Day, sexta longa de Penn atrás da câmara, regressa a essas paisagens depois do esquecível interregno “médicos sem fronteiras” de A Última Fronteira para se inspirar na história verídica de John Vogel, vigarista e ladrão de pouca monta, tal como contada pela sua filha Jennifer num livro de memórias: um homem que acreditou no “sonho americano” das eternas possibilidades e das eternas reinvenções, mas também nos “atalhos” menos inspirados para lá chegar. Um fantasista que se convencia das fantasias que ele próprio criava, deixando atrás de si um rasto de dívidas, gente enganada e corações quebrados — o título original do filme refere-se ao feriado americano do “dia da bandeira”, que comemora a adopção oficial em 1777 da bandeira norte-americana, mas também dia de anos de Vogel.

Às tantas, não será descabido dizer que Flag Day é, também, Penn a falar de si mesmo, aflorando a própria reputação tempestuosa que o precede; é ele quem interpreta John Vogel e que coloca os seus dois filhos com a actriz Robin Wright, Dylan e Hopper, a interpretar os papéis dos filhos de Vogel em adultos. Colocar pai e filha a representarem no ecrã pai e filha é um sinal claro da ausência de subtileza de Penn na sua abordagem à história, e de facto tudo neste filme desequilibrado está legível “à superfície”, de modo aberto e ostensivo, sem sub-textos e de coração aberto. Talvez porque o que lhe interesse mais seja explorar como a relação aos solavancos de John e Jennifer decorria de um contexto sociopolítico armadilhado desde o início: um sonho americano praticamente reservado a quem o podia pagar, o dinheiro como único mote e motivo. Para John, a questão é sempre material: impressionar a filha com objectos, estatuto, conforto. (Há, aliás, qualquer coisa de curioso no modo como Flag Day funciona como filme-gémeo, ou pelo menos irmão, do Falling de Viggo Mortensen, também ele sobre relações complicadas entre pais e filhos.)

Como a história é contada do ponto de vista de Jennifer, contudo, Penn prefere substituir esse materialismo por uma poesia visual entre o ingénuo e o nostálgico, que remete talvez em excesso para um Terrence Malick mais ancorado e menos místico que rodasse em super 8. Mas em nenhum momento se questiona a sinceridade do olhar desencantado, melancólico, de Penn sobre um desejo de família, de “normalidade”, que nunca existiu verdadeiramente e pareceu sempre reservado aos “outros”. Flag Day não será um grande filme, mas é realmente um filme, com um ponto de vista, uma postura e uma atitude perante a história que conta.

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