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Crítica

Um mundo de tarados

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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A fronteira entre o sensacionalismo e as boas intenções é cada vez mais estreita, e este filme da dupla checa Vit Klusak e Barbora Chaloupová é disso uma boa demonstração. É o relato de uma “experiência psico-social”, como os autores a denominam: contratam um grupo de actrizes (o filme começa pelas sessões de casting), todas adultas mas muito novas, e constroem-lhes (com adereços físicos e tudo) uma personalidade ficcional, fazendo-as passar por garotas de 13 ou 14 anos; de seguida, soltam-nas no mundo da internet e das “redes sociais”, e ficam a ver o efeito. Efeito relativamente previsível: as raparigas são bombardeadas com mensagens e clips de conteúdo bastante explícito, com origem em homens de todas as idades mas, sobretudo, homens já com idade para terem juízo.

Levando a “performance” ao extremo do seu experimentalismo, Klusak e Chaloupová filmam mesmo encontros reais e presenciais das raparigas com os seus contactos na internet, para elas terem ocasião de os confrontar com os seus actos (são as cenas mais bizarras do filme, em câmara semi-escondida e rostos digitalmente deformados, como numa reportagem televisiva). Para lá da exposição da “investigação” do filme e de todos os seus passos (À Solta na Internet é quase o seu próprio making of), que vale o que vale e tem aspectos interessantes (sobretudo na fusão entre a ficção e a realidade), a questão mais delicada pôe-se quanto à sua moral, política em primeiro lugar: para que serve (e a quem serve) um olhar sobre o mundo que diz apenas que “o mundo” está infestado de porcaria e depravação?

Conduzindo o filme rumo às mais sensacionalistas, e socialmente alarmistas, conclusões, Klusak e Chaloupová não têm nenhuma boa resposta para essa pergunta, e se querem ou quereriam que À Solta na Internet servisse como matéria de reflexão para pais e adolescentes permanece, no final, a ideia de que tudo o que filme quer dizer é que a internet é um lugar cheio de tarados. Não é, propriamente, uma ideia revolucionária, sem deixar de ser uma ideia quase tão perigosa quanto a actividade dos tarados.

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