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Crítica

No labirinto berlinense de Weimar

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Por alguma razão que nem deve ser muito difícil de adivinhar, o caos dos anos finais da República de Weimar anda em foco no cinema alemão. O ano passado, sem estreia em Portugal, houve um remake (ou uma nova adaptação) de Berlin Alexanderplatz (realizada por Burhan Qurbani), e outro clássico literário desses tempos, e sobre esses tempos, fornece a raiz narrativa de Fabian: o romance homónimo, largamente autobiográfico, de Erich Kastner, publicado originalmente em 1933, quatro anos depois do de Alfred Döblin. O filme de Dominik Graf, realizador nascido em 1952, e um dos veteranos do cinema alemão actual mais desconhecidos em Portugal (Fabian será apenas o seu segundo filme comercialmente estreado no nosso país), é um retrato vibrante dos últimos anos de Weimar, capaz de traduzir, com um vigor que a espaços pede meças ao de Fassbinder (porque a sua versão de Alexanderplatz vem muitas vezes ao espírito do espectador de Fabian), a confusão e o descalabro, o desespero e a euforia, daqueles anos.

Seria exagerado dizer que o filme aguenta o mesmo tom e a mesma energia durante as suas três horas de duração, mas na sua primeira metade, e até talvez um pouco mais do que isso, é um filme cheio de surpresas. Comecemos pelo espantoso primeiro plano, um travelling de câmara ao ombro pelo interior de uma estação de metropolitano, sem nenhum sinal “de época” taxativo; e depois, o travelling continua pelas escadas de acesso à superfície, e quando se sai cá para fora percebe-se que se está na Berlim de 1931, e o espectador sente isso como um choque. De certa forma, esta introdução lembra um pouco o que Petzold fez em Transit, o que também faz pensar que Graf ocupa uma “geração do meio” entre ele e Fassbinder (sete anos mais novo do que este, oito anos mais velho do que Petzold). Depois, essa primeira hora é um carrocel que traduz brilhantemente a aceleração da Berlim de 31. Planos rápidos, câmaras a deslocarem-se vorazmente pelo espaço, por vezes jump cuts, coexistência “materialista” de planos em digital com outros que se diria terem pelo menos o grão da imagem em película, abundantes imagens de arquivo da Berlim da viragem de 1920 para 1930.

Como o cinema não está ausente da trama narrativa de Fabian (e Kastner foi, ele próprio, um argumentista célebre do cinema alemão de Weimar e, depois, já no tempo do nazismo), Graf até parece citar alguns filmes alemães desse ano de 1931, como o M de Lang e a Ópera dos Três Vinténs de Pabst (há um homem a vender balões, há a breve aparição de um rufia chamado Mackie). Cenas de cabaret, milícias nazis na rua, graffiti de apoio a Ernst Thalmann (então, o líder do partido comunista alemão): Fabian vê-se, em grande parte da sua duração, como um passeio num theme park dedicado aos últimos anos de Weimar, e isso tem um efeito fascinante, quase hipnótico. Depois, dá a impressão de que o filme se cansa da injecção de adrenalina da sua primeira metade, e torna-se mais orientado para a resolução da narrativa e dos destinos das suas personagens, mas sem nunca cair no decorativismo, ou no academismo balofo de um outro, e muito elogiado, recente filme de época alemão, Nunca Deixes de Olhar (de Florian Henckel von Donnersmark). Não perde a singularidade, nem anula a carrada de surpresas que a primeira hora e meia têm para oferecer ao espectador. É um filme cheio de recompensas, um sinal (depois de alguns dos últimos Petzolds) de que na Alemanha se encontrou uma forma de insuflar uma energia revigorante a um género tão dado ao cliché como é o “filme de época”.

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