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Crítica

Esta vida são dois dias e o carnaval são três

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar é um filme de antes da pandemia, mas visto quase três anos depois da sua estreia parece falar na perfeição destes dias em que trabalhar em casa ganhou um outro sentido. É como se Toritama, a remota cidadezinha do Pernambuco onde Marcelo Gomes (Joaquim) filmou, fosse uma espécie de “laboratório laboral” do futuro: um local onde toda a gente, literalmente, trabalha “em casa” ou perto de casa, onde toda a gente é empresária em nome individual e ganha mais do que se fosse empregada por conta de outrem (mas quanto mais?). O quotidiano que Gomes filma, com alguma trepidação, não pouca surpresa e muita empatia, é esse conceito levado ao extremo: mesmo que toda a gente faça pausas para ir almoçar ou jantar com a família, toda a gente trabalha de sol a sol, sete dias por semana, pausando apenas no Natal, no Ano Novo — e no Carnaval, que é quando toda a gente tira férias, vai para a praia e Toritama vira cidade-fantasma.

Ora, o curioso é que este documentário nasce de uma vivência pessoal do realizador, que visitara Toritama em miúdo com o pai, fiscal dos impostos, e que regressa 40 anos depois para ver como o sítio mudou. Uma “busca do tempo perdido” que vai revelar a Gomes a marcha inexorável do progresso num “país do futuro” perfeitamente simbolizado nos magníficos planos de abertura, onde ao som de Bach vamos encontrando enormes placards publicitários no aparente meio de nada e a câmara vai abrindo o plano até vermos uma (muito Morettiana) lambreta. A Toritama de que Gomes se lembra, pacata modorra silenciosa onde as pessoas ficavam “esperando o tempo passar”, é uma espécie de Brigadoon que apenas regressa quando a cidade fica deserta para o Carnaval.

No resto do tempo, medido à velocidade da hiper-especialização na ganga de uma cidade que se tornou na “capital dos jeans no Brasil”, Toritama é uma metrópole, um mecanismo oleado que produz à medida das necessidades financeiras dos seus habitantes, já perfeitamente integrados numa sociedade de consumo adaptada às necessidades locais. Uma cidade que sobrevive 357 dias por ano para apenas viver, verdadeiramente, nos oito dias do Carnaval — filmada sem moralismos, sem juízos de valor e sem soluções pela câmara de Pedro Andrade e contada pela voz off de Marcelo Gomes. Um status quo que o espectador pode achar não ser sustentável a longo prazo — mas como diz às tantas uma das residentes, ninguém sabe o que trará o amanhã portanto vamos viver aqui e agora. O que, aqui entre nós, é muito brasileiro. 

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