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Crítica

Esta coisa da alma

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Antes do mais: não invoquemos em vão o nome de David Lynch. Não há razão nenhuma para lhe “opormos” o Dune de Denis Villeneuve. A versão de 1984 nunca foi unânime, foi o único dos filmes de Lynch que lhe fugiu ao controlo, mesmo a reavaliação de que tem sido alvo não é partilhada por todos. O resto são questões de urticária, maior ou menor, para com o canadiano, cineasta não desprovido de talento que se tornou no verdadeiro discípulo de Christopher Nolan, fazendo blockbusters que pensem — ou que tentem pensar — , e que não se resumam ao chorrilho de explosões e efeitos visuais do costume, mas tenham gente e emoções e pensamento lá dentro.

Villeneuve está claramente sintonizado com os tempos contra-culturais em que Frank Herbert escreveu o romance original — estamos a falar de um “império galáctico” e da opressão colonizadora imposta pelos Harkonnen à população do planeta Arrakis, de um universo submetido a um complexo político-militar-religioso quase ditatorial. Mas o que interessa sublinhar é que, desde que Raptadas o introduziu no sistema americano, Villeneuve parece ter dado rédea solta à sua dimensão formalista. Já se percebia isso no seu vistoso e gélido Blade Runner 2049, e Dune é o passo seguinte: um esforço extraordinário de construção de universo visual coerente, consistente e atmosférico, mas que sufoca por completo tudo o resto.

Há que dizer que essa rigidez de pedra e metal, essas arestas perfeitas de brutalismo visual cuidadosamente trabalhado, filmado com um prazer quase táctil, até são apropriadas para as manipulações políticas contadas nesta primeira de duas partes. Mas, pela mesma bitola, tudo se fica por uma pose de sisudez sublinhada em excesso pela música bombástica do incontornável Hans Zimmer. Não há leveza em Dune que nos emocione para lá do gesto fetichista de criar uma impecável casa de bonecas onde o humano sufoca. Villeneuve não é mau com os actores, e estes retribuem-lhe dando espessura a personagens que têm apenas uma mão cheia de cenas (veja-se como Javier Bardem ou Charlotte Rampling dominam o ecrã com a sua simples presença). Só que chegamos ao fim de Dune cientes que o Bildungsroman de Paul Atreides ainda mal começou, e que estas duas horas e meia não passaram da disposição das peças no tabuleiro de xadrez com vista ao verdadeiro jogo que ainda está por vir. Um simples “aperitivo” que nos deixa simultaneamente saciados e frustrados.

Dune segundo Denis Villeneuve existe em paralelo ao de David Lynch. Não é melhor, não é pior, é diferente, é perfeitamente válido, é igualmente falhado ou conseguido consoante o ponto de vista que se quiser adoptar. A nós, encheu-nos a vista, mas não a alma.

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