Menu
Crítica

Uma questão de honra

Autor da crítica: Jorge Mourinha

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Mesmo que o resultado seja muito desequilibrado, há muito por onde ferrar o dente no novo filme de Ridley Scott — o primeiro de dois que o autor de Blade Runner e Gladiador estreia este ano (no final de Novembro chegará Casa Gucci, com Lady Gaga, Al Pacino e Adam Driver). Em parte, isso deve-se a O Último Duelo ter sido adaptado de um livro de não-ficção de Eric Jager por... Matt Damon e Ben Affleck. A outra parte está no caso verídico da Idade Média que se conta, à medida do tempo #MeToo que vivemos, uma história de violação, com uma dama abusada por aquele que foi o melhor amigo do marido.

O Último Duelo apresenta as múltiplas versões da história à la Rashomon de Kurosawa: primeiro, o ponto de vista do esposo desonrado, Jean de Courrèges (Damon), que subiu a pulso e foi armado cavaleiro pelos seus feitos de batalha. Depois, pelos olhos do suposto violador, Jacques le Gris (Driver), escudeiro tornado braço direito de um aristocrata fútil que é também suserano de ambos os homens. Finalmente, “a verdade” da senhora Marguerite (Jodie Comer), cujo estatuto de esposa honrada não passa de uma hipocrisia numa sociedade patriarcal onde a mulher não passa de mais uma moeda de troca, um bem como outro qualquer que se possui.

Ninguém fica bem no retrato: nem os homens, canalhas venais mais preocupados com a honra e com o bom nome, nem as mulheres, que calam e consentem por saber que nada podem conseguir num mundo onde são vistas como meras éguas parideiras (metáfora que Scott, aliás, explicita a dada altura sem nenhuma subtileza). E o elenco afadiga-se com prazer a tornar estas personagens verosímeis e vulneráveis, jogando sabiamente com as suas próprias imagens públicas e provando que têm tarimba de actores. Damon, o all-American boy, exala desconforto como um guerreiro permanentemente olhado de esguelha devido à sua origem pobre; Driver brinca com a sua imagem de pinga-amor cerebral no seu escudeiro que voou demasiado perto do sol; Affleck é um impecável playboy beto condescendente. O filme pertence, no entanto, a Comer, capaz de passar do gelo à fúria sem que isso afecte o desespero que a sua performance deixa entrever permanentemente.

O problema é que quem orquestra tudo isto é um Scott fora de pé nas nuances exigidas pela história, e nem sequer consegue invocar o talento de criador de universos que lhe reconhecemos no seu melhor. O inglês parece aqui mais um anónimo e desinspirado ilustrador, com algumas bizarras opções de montagem a deixarem os actores desamparados ou a história incompleta. Mas isso não deixa de contribuir para a singularidade de um objecto claramente “fora da caixa” do actual vulgar de Lineu da produção americana, cujo resultado pouco entusiasmante não anula o que tem de interessante.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA