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Crítica

Uma mulher à espera

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O aspecto interessante de Uma Paixão Simples é ser um filme totalmente dedicado à perseguição de uma coisa que, pela sua natureza material (ou mesmo “materialista”), o cinema tem dificuldade em conseguir: um estado psicológico, o interior da alma de uma personagem, e praticamente nada mais do que isto, um estado psicológico e o interior da alma de uma personagem. A voz off sobre o rosto da protagonista Laetitia Dosch resume o essencial do filme da franco-libanesa Danielle Arbid, anunciando um período da vida daquela mulher em que, tomada por uma paixão assolapada por um homem casado (um russo, interpretado pelo bailarino Sergey Polunin, que trabalha no serviço de segurança da embaixada russa em Paris), mais não fez do que “esperar”. E esta “espera”, consubstanciada num anseio melancólico que, se não suspende a realidade, se sobrepõe a ela e a deixa ao longe, faz todo o objecto de Uma Paixão Simples.

Que é assim o relato de um estado de paixão, mais do que o relato de uma história passional. A “espera” é a figura narrativa dominante — o russo aparece e desaparece, quase sempre para cenas de sexo filmadas em tangente ao softcore (parece haver, da parte de Arbid, um flirt perfeitamente dominado com um erotismo de uma timidez quase púdica), e é tudo menos uma personagem simpática, o que é uma manifestação de inteligência da parte do filme (fosse o partenaire masculino um galã, ou uma personagem capaz de colher a simpatia do espectador, e o filme passaria a ser sobre um casal, sobre um affaire, em vez de ser sobre a angústia da parte feminina da relação, em vez de ser sobre a alma de uma mulher apaixonada).

Como filmar isto, uma mulher permanentemente à espera? Arbid responde de forma quase literal: fazendo um filme que parece funcionar ao “ralenti” (sem nunca usar nenhuma câmara lenta), recortando o rosto de Laetitia Dosch como se a personagem e a realidade circundante estivessem em planos diferentes (as imagens dos seus passeios pelas ruas parisienses, por exemplo). Sempre enquanto “sugestão” (também não há efeitos fotográficos óbvios), mas, no fundo, a “sugestão” é tudo o que o filme pode almejar, uma vez que o seu objectivo é quase uma causa perdida — muito melhor traduzida pela literatura, que tem outra capacidade de perscrutar o interior das suas personagens (e o filme adapta um romance de Annie Ernaux), ou pelas canções (que Arbid usa cirurgicamente, e com um certo impacto, como quando a banda de som é tomada pela Stranger Song de Leonard Cohen). Mas é por ir atrás dessa “causa perdida” que o filme merece respeito e simpatia: fica forçosamente num meio-caminho, mas esse sítio que encontra tem uma certa qualidade hipnótica e, no seu melhor, perfeitamente convincente.

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