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Crítica

Os pecados dos pais

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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É sempre curioso ver um cineasta dito “sério” a abordar o cinema de género — no caso, Scott Cooper, autor de Crazy Heart, Black Mass — Jogo Sujo e Hostis, que aceitou a “encomenda” dos produtores Guillermo del Toro e David S. Goyer. Faminto inscreve-se na linhagem do cinema de Cooper, que tem questionado com maior ou menor sucesso as promessas e premissas do sonho americano, e que encontra aqui uma boa base de trabalho: uma pequena cidade do Oregon destruída pela crise económica que encerrou as suas minas, entregue ao desespero dos opiáceos, sítio perfeito para o ressurgimento de uma criatura dos mitos nativos americanos. Mas é também uma história que ressoa com o cinema de Guillermo del Toro, que sempre trabalhou o terror como espelho distorcido de uma realidade sombria num local específico (seja ela a Guerra Civil Espanhola do Labirinto do Fauno ou a Guerra Fria da Forma da Água).

O terror, aqui, ancora-se numa realidade desolada e cinzenta, numa cidadezinha deixada à sua sorte, esquecida das grandes metrópoles e forçada a enfrentar uma presença sobrenatural que serve como metáfora do desalento e da falta de esperança. Metáfora ampliada pela relação conturbada entre irmãos: Julia (Keri Russell), a professora que fugiu para a grande cidade para escapar ao abuso familiar, e Paul (Jesse Plemons), o xerife que ficou para trás encurralado, “desmultiplicada” nos dois irmãos miúdos que se vêem “prisioneiros” da regressada criatura encarnada no pai. Como quem diz que serão os filhos a pagar a factura dos pecados dos pais, sejam eles económicos, emocionais ou ecológicos.

O que resulta de Faminto é, de facto, curioso: um filme de género que reflecte a escuridão no coração da América contemporânea, onde a seriedade não é mera sisudez mas está integrada no próprio ADN do projecto, que questiona sistematicamente a ideia de comunidade que o sonho americano nos vendeu, e que não hesita em enfrentar de frente o mal (Del Toro, por exemplo, não teria ousado ir “até ao fim” do modo que Cooper o faz). É aí que reside a força desta série B sólida e atmosférica, interessante mesmo quando as suas fraquezas (efeitos especiais pontualmente pouco convincentes) e limitações (o lado de género nem sempre sustenta por inteiro as ambições temáticas) vêm ao de cima.

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