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Crítica

West Side Story: match nulo

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Indo directos ao assunto: assim, de repente, é difícil pensar em remake mais na mouche do que o que Steven Spielberg acaba de fazer de West Side Story. O respeito e o afecto de Spielberg e da sua equipa criativa pelo original não tolheram os seus movimentos e deixaram-nos à vontade para preencher e reforçar a estrutura narrativa da peça sem precisar de mexer na sua alma. Este West Side Story revisto em 2020 por Spielberg, pelo dramaturgo Tony Kushner e pelo coreógrafo Justin Peck é o mesmo West Side Story criado em 1957 nos palcos americanos pelo coreógrafo e encenador Jerome Robbins, com libreto de Arthur Laurents e música de Leonard Bernstein com letras de Stephen Sondheim, obra maior e obra de génio do musical da Broadway. É Romeu e Julieta em fundo de gangues de rua da Nova Iorque dos anos 1950, num musical “integrado” onde as canções e a coreografia fazem avançar a narrativa, numa versão que recusa actualizar arranjos ou localização.

Sendo o mesmo West Side Story de sempre, este é também um West Side Story diferente; o meio século entretanto decorrido permite desenvolver mais abertamente aquilo que no original estava secundarizado. Que são as tensões raciais patentes nos bairros operários, entre os brancos que viam os seus bairros serem “invadidos” e os imigrantes latinos que chegavam em busca de uma vida melhor, sob pano de fundo da expropriação e “gentrificação” dos bairros populares. E, onde tínhamos no original Natalie Wood a interpretar a portorriquenha María, o casting é aqui etnicamente correcto, com uma especial remissão para o filme que Robbins e Robert Wise dirigiram em 1961: o casting de Rita Moreno, então vencedora do Óscar de melhor secundária por Anita, misto de “passagem de testemunho” e “bênção”. (E Ariana de Bose, que assume o papel de Anita nesta versão, é absolutamente extraordinária no papel.)

Agora que já despachámos que este novo West Side Story é fita digna — e fita que se inscreve na linhagem mais classicista do cinema de Spielberg, na sua absoluta legibilidade formal, na sua tentativa de recuperar uma certa Hollywood perdida para sempre que o torna a espaços gémeo de Clint Eastwood — terá de se enfrentar o elefante na loja de porcelanas. Era realmente necessária uma remake de West Side Story? Claro que é sempre possível propor uma nova encenação de uma peça, uma nova leitura de um clássico, recriá-la para a dar a conhecer a novas gerações — de outro modo Shakespeare não teria sobrevivido como sobreviveu.

A questão aqui é outra, contudo: a nova versão não se afasta o suficiente do material para abrir novas leituras, limitando-se a tornar em texto visível o que antes era subtexto sugerido. Nada se perde do filme de Wise e Robbins, mas nada se ganha com a releitura. E perante este match nulo, é legítimo levantar reservas: dificilmente se poderia fazer melhor sem “inventar” mais, mas Steven Spielberg não quer inventar o suficiente para ir mais longe. O que faz de West Side Story, sim, um bom filme e, ao mesmo tempo, um bom filme inútil.
 

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