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Crítica

A insustentável felicidade do ser (jovem)

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Chamemos, sem pejo, a Licorice Pizza aquilo que o novo filme de Paul Thomas Anderson é: um filme feliz. Uma celebração daquele momento da vida em que tudo parece ainda ser possível, em que os obstáculos podem ser ultrapassados com uma boa dose de engenho e outro tanto de desfaçatez. É isso que representa o seu “herói”, Gary Valentine, adolescente à beira da maioridade, filho de uma relações públicas de Los Angeles que é também miúdo actor e fura-vidas de primeira. Sempre em movimento, como um pequeno tubarão que não pode ficar quieto, sempre a correr de um lado para a outro, com aquela energia permanentemente insatisfeita de quem está a abrir pela primeira vez as portas que crescer revela. E todo o filme, à sua imagem, está sempre a correr (por aí se pode, por exemplo, fazer uma ponte com as personagens em fuga de Léos Carax, mas as de Anderson estão menos a fugir “de” algo e mais “em direcção a” outra coisa).

Licorice Pizza será certamente um retrato de uma adolescência muito específica, num sítio muito específico, num momento muito específico: uma Los Angeles “à beira do fim” — ou antes “à beira do fim” de uma era (tudo se passa em 1973, no ano do “choque petrolífero”). É também um olhar sobre uma “velha Hollywood” reduzida a sobreviver em séries televisivas ou via bravatas de outros tempos recriadas em noitadas de vazio, no momento em que a própria “nova Hollywood” está prestes a ser engolida pelo sucesso de Tubarão sem disso ter consciência.

Mas esse olhar — que não deixa de remeter para o Era uma Vez em Hollywood de Quentin Tarantino, no modo como cruza ficção e realidade com um olhar maroto, mas aqui sem querer realmente reescrever a história — não passa de uma textura de fundo. Um pretexto para desenhar por interposta pessoa a relação fugidia, esquiva, entre Gary e Alana, a rapariga mais velha que ele conhece como assistente de fotógrafo e que se decide a conquistar dê lá por onde der.

Alana vê Gary como o “irmão mais novo” que ela, a mais nova de três irmãs, não tem, e nesse constante vai-e-vem sempre em fuga dos sentimentos, que é também entre um vai-e-vem entre a amizade e a paixão, descobre-se a felicidade indestrutível de uma comédia propulsionada por uma indefinível e alegre leveza, consciente da sua própria fragilidade e fugacidade mas disposta a tudo para guardar um traço desse estado de espírito. Licorice Pizza, ainda por cima, é todo transportado às costas dos seus dois protagonistas, que aguentam o peso como se nunca tivessem feito outra coisa na vida: Cooper (filho de Philip Seymour) Hoffman e, sobretudo, Alana Haim. A palavra “revelação” não é suficiente para explicar o que aqui se passa com estes dois estreantes mais inspirados que muito consagrado.

Licorice Pizza é o filme de que não sabíamos que precisávamos: nostálgico mas não trôpego, leve sem ser disperso, cheio de esperança por tudo quanto é sítio. Um filme feliz, perfeito para fechar 2021 e entrar em 2022.

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