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Crítica

Recomeçar de novo com Mathieu Amalric

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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A viagem, o movimento, parecem ser motivos recorrentes sempre que Mathieu Amalric passa para trás da câmara (e deu até título a um dos seus filmes mais pessoais, Tournée — Em Digressão) — e é por aí que Abraça-me com Força parece começar (isto é: antes de o seu torrencial fluxo sensorial se acalmar, aí a um terço do filme, e começar a ganhar estrutura). Por uma mulher que entra numa velha carripana cor de laranja, enquanto o marido e as crianças dormem, e os deixa em direcção ao mar.

Não é mentira que Clarisse guie até ao mar; mas também não é exactamente verdade, como Amalric fará questão de mostrar ao longo de um road movie ao sabor de amanheceres e crepúsculos, que não percorre as estradas que seriam de esperar. Adaptado de uma peça da escritora Claudine Galéa, é uma meditação sobre a perda e a ausência, situada quase por inteiro no limbo anestesiado de um interregno entre o passado e o futuro. Amalric conta o filme a partir do lugar de Clarisse, pelos seus olhos, pela sua experiência do limbo, pela sua necessidade de “recomeçar”. Clarisse não é, por isso, uma narradora “fiável”, mas Amalric joga limpo: basta reparar como a montagem (onde o som nos está já a projectar para a cena seguinte ou ainda persiste da cena anterior) nos lança pistas para exercitarmos os músculos de espectador; ou como a construção da narrativa vai na direcção de um progressivo aclarar das ideias de Clarisse e da sua visão do mundo.

E é quase comovente perceber como é um filme musical — designação entendida aqui como adjectivo: tudo se constrói e coalesce como uma sinfonia de câmara ou um oratório (ou não fosse a sua história a de um luto por uma família que se desfaz). Um filme “contado” pela música, uma colecção de peças clássicas (Beethoven), modernas (Ravel) e contemporâneas (Messiaen) pontuadas pela secura rugosa de um velho tema de J. J. Cale.

Aqui e ali, sentimos que a história não sustenta a inteligência de que o realizador (e a sua equipa) fazem prova. Tal como teríamos gostado que Vicky Krieps fosse menos fantasmática como Clarisse, menos diáfana num papel difícil que aguenta todo o peso do filme (mas nada nos garante que essa opção por uma transparência paradoxalmente opaca, uma espécie de véu que se deixa atravessar, não fosse exactamente o que Amalric queria). Mas o amor que o actor-realizador tem pelas personagens, pela humanidade que delas transparece nos momentos mais difíceis, é inconfundivelmente seu (todo o seu cinema fala, sempre, de sobreviver) e profundamente comovente. Esse amor não coloca Abraça-me com Força ao nível dos superlativos O Estádio de Wimbledon e Barbara; mas é suficiente para recomendar o novo filme sem reservas de maior.

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