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Crítica

Nunca vás sozinha a uma cave escura sem luz

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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“Pergunte-me sobre O Senhor Babadook, Vai Seguir-te, Hereditário ou A Bruxa!”, grita em desespero, logo nos primeiros minutos, a primeira “vítima” de Gritos, confrontada com a chamada telefónica do assassino misterioso que pergunta “qual é o teu filme de terror preferido?”. Como quem pergunta “a sério? Outra vez um franchise? Não tínhamos entrado na era do filme de terror sério, ‘elevado’?”. E como quem diz “não tínhamos deixado Gritos para trás já há uns tempinhos largos?” Pelos vistos, não. “Hollywood anda sem ideias!” grita-se às tantas no filme. “Está na altura de introduzir ideias originais! De voltar à fonte!”

Co-escrito por James Vanderbilt (Zodiac) e dirigido a meias por Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, do colectivo Radio Silence (Ready or Not), Gritos inscreve-se na cronologia da série criada em 1996 por Kevin Williamson e pelo falecido Wes Craven com a dupla função de “objecto comemorativo” dos 25 anos do primeiro filme e de reinventor da lógica meta-ficcional do género. Um slasher movie simultaneamente convicto e irónico, consciente da sua própria fórmula, cujas personagens cresceram a ver filmes de terror e já sabem como tudo se vai desenrolar (e que se deixam cair nas armadilhas porque o jogo assim o exige). Sem entrar em spoilers, este quinto episódio da série actualiza de modo sardónico e engenhoso essa lógica para a era do fan service dos “universos cinemáticos”, em que o que interessa é “satisfazer os fãs”, por mais tóxicos que eles possam ser (e, acreditem, aqui, eles são mesmo tóxicos).

Num momento em que as séries de terror teenager que Gritos ajudou a lançar (como Sei o Que Fizeste no Verão Passado ou O Último Destino) cederam lugar a filmes mais “sisudos”, o novo Gritos assume-se porta-estandarte do género como montanha-russa fugaz, divertimento descontraído, respeitando a fórmula sem resistir a abaná-la sempre que possível (há um momento, inspiradíssimo, que parece feito de propósito para irritar o aficionado). Sempre com um sentido de humor impecável (“espera, sou a estrela de uma ficção de fãs?”) e uma consciência precisa do papel que desempenha no actual andaime hollywoodiano (onde os filmes de terror são uma fonte de rendimento segura).

Gritos não precisa de fazer grandes alardes da sua diferença (o elenco abarca o espectro de género, etnia e sexualidade sem nunca precisar de chamar a atenção para isso), e vai buscar os heróis da trilogia original (Neve Campbell, Courteney Cox e David Arquette) para emprestar legitimidade, mas fá-lo sem nostalgia serôdia nem exploração gratuita, e com uma leveza de tom que é de louvar. Não deixa de ser perfeitamente legítimo gostar mais do Senhor Babadook, mas pode-se curtir que nem um castor este novo Gritos que os parentes não cairão na lama por isso.

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