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Crítica

Com Balzac no corpo

Autor da crítica: Vasco Câmara

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As sacrossantas oposições Cahiers du Cinéma/Positif, que fizeram a História, têm nova actualização: Ilusões Perdidas, de Xavier Giannoli. O “melhor filme” do realizador para a Positif, que elogia a “potência romanesca”, um “panfleto” com um “perfume nauseabundo” para os Cahiers... Estamos com a Positif.

Não nos iludamos: uma polémica cinéfila, hoje, não é o que era... nem nas redes sociais ou sobretudo nunca nas redes sociais onde domina a banalização da indignação, que é um espectáculo fátuo de narcisismo. Assim, o que se torna curioso na amplitude térmica da recepção a este filme de Giannoli que se segue à aliança entre a dúvida e a fé sustentada por A Aparição (2018) e pelo seu insólito par, um repórter de guerra (Vincent Lindon) e uma vidente (Galatéa Bellugi), é o facto de ter reacendido, fugazmente, antigas fagulhas, trazendo ecos de velhas escaramuças, repondo as fronteiras essenciais entre as linhas editoriais das duas revistas: um combate no território do “filme do meio”, onde os fantasmas da adaptação literária e do filme de prestígio continuam a não dar descanso. Giannoli é, aliás, um continuador de uma certa tendência do cinema francês — a de alguém que serve o argumento e as personagens, evidências de um “artesão” mais do que um “autor” — sobre a qual os “jovens turcos” da Nouvelle Vague dispararam as suas rajadas anti-academismo. Basta dizer que um cúmplice das aventuras cinematográficas de Giannoli é o argumentista Jacques Fieschi, colaborador da fase final da obra de... Claude Sautet.

Ilusões Perdidas é, então, sim, uma adaptação literária. Na base, o romance de Balzac publicado, entre 1837 e 1843, em três partes, Les Deux Poètes, Un grand homme de province à Paris e Les Souffrances de l’inventeur. Giannoli e Fieschi interessaram-se pela parte do meio, a do fracasso das pretensões de um jovem e provinciano poeta chegado a Paris vindo da sua Angoulême: durante o período da Restauração o romântico Lucien de Rubempré (Benjamin Voisin) chega à capital com ambições literárias mas acaba envolvido no compromisso e na sordidez do jornalismo e da política, áreas que navegam ao sabor das alianças entre Liberais e Realistas. Veio de Angoulême, regressará a Angoulême. Para já temos Paris...

Esta aventura pela derrota, pela traição (desde logo, traição de si próprio) é estimulada, claro, pelo visionário texto de Balzac (já lá vamos...). Mas é bafejada pela oportuna intervenção de Giannoli a nível de uma intuitiva “política de actor”. No cast de Ilusões Perdidas estão, e são facilmente reconhecíveis por um público não francês, Cécile de France, Xavier Dolan, Jeanne Balibar, Gérard Depardieu ou Jean-François Stévenin (comovente última aparição deste actor, e realizador, desaparecido em 2021). Ora, o que é decisivo neste cast de apelo internacional não é o arranjo floral, é o movimento incessante do colectivo, com o texto de Balzac no corpo (como a música de Mozart no Amadeus, de Milos Forman). Nunca sendo interrompido por protagonismos, o clã devora(-se) e destrói(-se). Bem visto, por isso, na entrevista da Positif a Giannoli a referência a Tudo Bons Rapazes, de Martin Scorsese.

Não, Tudo Bons Rapazes não é uma referência natural para o século XIX. Mas também não traduz aqui uma qualquer operação pop facilitada por anacronismos e actualizações, ao jeito de Marie Antoinette (Sofia Coppola, 2006). É questão de corpo, não de guarda-roupa. É algo de vital, de orgânico, criado pela comédia humana balzaquiana: um cenário de futuro, o nosso presente, que Balzac vislumbrou.

Isso é cortesia do autor (1799-1850) mas também da forma como Giannoli e Fieschi dele aproveitam a capacidade de antever o mundo que hoje conhecemos como nosso e realidades para as quais encontrámos nomes: “sociedade do espectáculo”, fake news... Está tudo apontado no texto de Balzac e assim é servido por Giannoli/Fieschi. Mas esse é um dos motivos, acrescente-se, da separação das águas na recepção crítica a Ilusões Perdidas: há quem considere que aqui se investe, com uma guinada panfletária, contra o nosso tempo, distorcendo mesmo Balzac.

Em vez disso, algo de notável acontece: um dispositivo, habitualmente na origem de atavismos vários, é revigorado, o “filme de época” deixa de ser um género e passa a ser apenas uma forma de descrever o objecto. Ilusões Perdidas não contribuiu para uma museologia do século XIX. Os sinais de época — guarda-roupa e cenários — servem a Giannoli como máscaras, quase manobras de distracção, para não dar muitas hipóteses à tentação do filme de tese e de ideias. Isto é, ao cinéma plaidoyer que, de André Cayatte (um dos ódios de Truffaut) a Bertrand Tavernier, foi cultivado pelo cinema francês “do meio”, tradição em que Xavier Giannoli aqui meticulosa e serenamente se insere, sim, e que transcende.

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