Menu
Crítica

Javier Bardem, o padrinho da aldeia

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Fernando Léon de Aranoa nunca mais repetiu a graça de Às Segundas ao Sol, e há vinte anos (esse filme estreou em 2002) que é assim que começamos cada texto sobre um novo filme do realizador espanhol, sobretudo aquelas derivas “internacionais” que trocavam um dos atributos das “Segundas” (o extremo “localismo” da acção e das personagens, estivadores no porto de Vigo) por aventuras desenraizadas na guerra da Bósnia (Um Dia Perfeito) ou na Colômbia (Amar Pablo, Odiar Escobar). O Bom Patrão não repete a graça, mas aproxima-se dela, ao menos temática e geograficamente. Algures no interior espanhol, aparentemente longe das grandes metrópoles (não há, salvo erro, nenhuma indicação geográfica explícita), uma semana na vida de um “bom patrão”, dono de uma fábrica de balanças, teoricamente um bom pretexto para Léon de Aranoa voltar a uma observação do universo laboral contemporâneo numa escala curta e — sem nada de pejorativo — provincial.

A expectativa de que esse universo seja olhado com uma certa severidade — a severidade dos Recursos Humanos de Laurent Cantet, por exemplo — esgota-se em duas ou três cenas. O registo é mais bufo, ligeiramente reminiscente da tradição cómica europeia, sobretudo a italiana (pode-se facilmente imaginar alguém como Alberto Sordi num papel semelhante ao de Javier Bardem), e centra-se na personagem do patrão, que se encontra naquela zona opaca (bem cultivada por Bardem) entre a boa e a má fé. A fábrica produz balanças e o filme pisa e repisa a metáfora do “equilíbrio” muito para além do necessário, insistentemente convidando a que se veja a personagem de Bardem como um equilibrista — numa semana em que ele tem que ter a fábrica num brinquinho porque vem aí a visita de uma comissão que atribui uns prémios quaisquer de excelência industrial, mas em que tem que lidar com o destrambelhamento de um dos seus principais empregados (que se angustia por uma crise matrimonial), com um ex-empregado revoltado por ter sido despedido e se planta num baldio em frente à fabrica em protesto permanente, e por cima disto ainda se distrai com a chegada das novas estagiárias.

Dentro deste corrupio, e fora o anedotário, ou mesmo incluindo-o, o “bom patrão” será uma caracterização relativamente justa do pequeno poder económico de província (até mais “ibérico” do que apenas espanhol), um centro de gravidade “paternalista” cuja influência vai, naturalmente, muito para além dos portões da fábrica. Desconfiamos desde as primeiras aparições de Bardem (as coisas que ele faz com o rosto e sobretudo com os olhos, a gestualidade, a maneira de dizer certas frases) que a “pauta” para a sua personagem foi encontrada no Michael Corleone de Al Pacino, e quando um velho empregado lhe vem pedir um “favor” (safar o filho que foi detido por uns desacatos) confirma-se que Bardem e Aranoa tratam a personagem como um godfather do “pueblo”. E perto do fim, numa das cenas cruciais para o desfecho, lá teremos um pequeno exercício de montagem paralela com epicentro num bailado (cuja música se estende para os outros espaços), a confirmar que não é só Bardem a mimar Pacino, é também León de Aranoa a apropriar-se de Coppola para um Padrinho em chave irrisória. Não é uma má ideia semântica ou estrutural, mas como tudo neste filme (que se vê com um certo prazer pelo menos até começar a ser algo cansativo) dá a sensação de que poderia ter sido feito com mais vertigem (e sobretudo com personagens menos abonecadas). Seria o próprio recorte de anti-herói “corleonesco” do protagonista a ganhar com isso.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA