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Crítica

Notícias da escola iraniana

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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O Perdão, assinado a meias por um casal (ela, Maryam Moghadam, é também a actriz principal), é um filme que nas virtudes e nos vícios demonstra bem a existência de uma “escola iraniana”, um conjunto de características, procedimentos e linhas temáticas que se manifestam para além da autoria específica de cada filme. Embora vindo de um par de realizadores desconhecidos internacionalmente (para Maryam é o segundo filme como realizadora, para Behtash Sanaheea é o terceiro), pode parecer muitíssimo familiar.

Desde logo, a severidade das situações, como se a vida no Irão estivesse sempre próxima de um extremo qualquer – neste caso, é a pena de morte, a execução de um homem (cena pela qual o filme começa) que depois a própria Justiça vem a reconhecer estar inocente, lançando a viúva (Moghadam) numa jornada contra tudo e contra todos, não pelo dinheiro da “reparação”, mas pela limpeza oficial do nome da família, para evitar que a filha cresça com aquele estigma a pesar sobre ela. A filha, aliás, uma adolescente ou quase, surda-muda e cinéfila (pormenor que permite várias cenas com imagens de filmes populares do Irão “antigo”, prévio à revolução islâmica), é a personagem mais singular, e mesmo sem nenhuma exuberância particular prossegue – outra vez a “escola” — a tradição de ser do Irão que vêm as mais peculiares “crianças no cinema” da actualidade.

Desta forma, em picotado que nunca precisa de ser explícito, tocam-se já vários aspectos que, sem dúvida, fazem parte do programa dos realizadores: a brutalidade burocrática do Irão, a clandestinidade cultural de certos objectos, a solidão e marginalização femininas (outro bom momento é quando Maryam tira o véu, e o espectador percebe que ainda não lhe tinha visto o cabelo), uma angústia quotidiana sempre all pervasive, e a partir do momento em que entra em cena um antigo amigo do marido que será o companheiro da protagonista na sua demanda, a enorme ambiguidade, potencialmente ameaçadora, das figuras masculinas. Acrescenta-se a isso uma questão “filosófica”, aquela que ocupou Fritz Lang numa obra inteira, a questão do “perdão” — o filme evolui até que seja a protagonista do acto de perdoar ou não perdoar, num volte-face do argumento que nem por ser previsível deixa de ter a aparência de uma artimanha narrativa para que O Perdão faça chegar a água ao seu moinho. Já agora, o caminho da água para o moinho faz-se numa notável aplicação de outra grande tradição da “escola iraniana”, o travelling de automóvel (pelas ruas de Teerão) com a câmara montada no capot e apontada ao interior do carro – o que dá uma obra sólida, que se regista (é o termo) com interesse, mas a que falta rasgo, um flash de originalidade ou insurreição que o sacuda do seu carácter... escolar.

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