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Crítica

O carnaval de almas de Guillermo del Toro

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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A trama de Nightmare Alley resume-se em duas ou três linhas: é a história da ascensão e queda de um charlatão na América do final dos anos 1930 — da sua “adopção” por um grupo de feirantes de tuta e meia até ao seu triunfo como atracção de luxo em clubes nocturnos — e de como “quem tudo quer tudo perde”. Não é exactamente um “romance iniciático” porque percebemos cedo que Stan Carlisle (Bradley Cooper) já tem uma história por trás, e porque tudo se passa naqueles anos intermédios entre a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial em que a América estava ainda a procurar recuperar do primeiro colapso do capitalismo selvagem.

Por isso, há a percorrer o novo filme de Guillermo del Toro um certo “perfume de fim do mundo”: uma evocação quase Weimariana de uma sociedade à beira de desabar, sublinhada pelo barroquismo grandiloquente de um trabalho visual cuidadíssimo (mas é pena, depois, que essa invocação da tempestade que se aproxima seja, de facto, mais um “perfume” do que uma presença). E Carlisle, cujo destino transporta uma ironia quase macabra, sabe perfeitamente no que é que se está a meter. Mas o espectador, saberá?

Muito se tem escrito sobre o fracasso de Nightmare Alley na bilheteira americana, que nestes dias de covid-19 tem sido visto como tudo e o seu contrário. Como de costume, é uma conversa que passa ao lado do essencial: o filme tem um travo de olhar “de fora” a escarafunchar “por dentro”, de sensibilidade externa a respeitar/esvaziar a fórmula americana. Lang passounos pela cabeça, mas seria desproporcionado — mesmo que Nightmare Alley trabalhe na margem do film noir, com o equilíbrio entre a “boa mulher” que representa a sensatez (Rooney Mara) e a femme fatale que representa a ambição (Cate Blanchett).

O filme divide-se em duas metades. Uma primeira “rural” no mundo dos feirantes que é onde está verdadeiramente o coração de Del Toro (sim, Freaks, claro, mas nem por isso), muito mais próximo dos seus filmes “não-Hollywoodianos”, sobretudo Nas Costas do Diabo e O Labirinto do Fauno; uma segunda “urbana” que abre caminho para a perdição, e onde Del Toro se deixa enredar nas convenções dramatúrgicas do noir sem parecer nunca verdadeiramente acreditar nelas. À imagem do seu (anti-)herói, Nightmare Alley sucumbe ao peso da ambição do statement (e todos sabemos que, quando quer ser sério, Del Toro é, geralmente, melhor na sugestão do que na declaração).

Mas, ainda assim, o importante passa: o mundo é um pântano, um enorme truque de magia que nos convence (porque queremos acreditar?) da existência de uma beleza à qual o preço de acesso pode ser incomportável. Del Toro não tem problemas em filmar este freak show como “coração das trevas” de um sonho americano a debater-se, os tons de ferrugem e ouro da fotografia de Dan Laustsen a sublinhar como tudo não passa de uma miragem. Os extremos tocam-se; a diferença entre o pechisbeque e o requinte está apenas nos olhos de quem vê. Não admira que os americanos não tenham gostado do espelho distorcido que Nightmare Alley lhes apresenta.

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