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Crítica

Estados alterados e gatos psicadélicos

Autor da crítica: Jorge Mourinha

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Confrontando os dois filmes em que encontramos Benedict Cumberbatch no papel principal quase em simultâneo – O Poder do Cão, de Jane Campion, e esta Vida Extraordinária de Louis Wain – poder-se-ia pensar que acedíamos aos “dois lados” do actor britânico. De um lado, uma personagem dramática, reprimida, maior que a vida, entre o vilão e o anti-herói num denso estudo psicológico. Do outro, uma personagem excêntrica, arquétipo do cavalheiro diletante vitoriano e “inventor distraído” num biopic confortável baseado em história verídica.

Na verdade, não temos dois Cumberbatches, porque a obsessão que trabalha O Poder do Cão também trabalha Louis Wain. E seria injusto que o maior perfil do filme de Campion ensombrasse esta singularíssima biografia do ilustrador que se celebrizou com os seus desenhos extravagantes e psicadélicos de gatos. No papel, A Vida Extraordinária de Louis Wain teria tudo para ser mais um daqueles soporíferos filmes de “qualidade britânica”, mas Will Sharpe (de quem vemos neste momento no pequeno ecrã a série Landscapers) desequilibra-nos desde os primeiros planos. O seu filme identifica-se abertamente com a extravagância obstinada da sua personagem, único varão de um sufocante matriarcado, erudito auto-didacta obcecado pela electricidade que – para citar esse outro grande excêntrico, Brian Wilson, just wasn’t made for those times.

Poder-se-ia descrever A Vida Extraordinária de Louis Wain como um filme bipolar, tal a sua (constante) inconstância entre alegria e depressão, comédia e tragédia. Essa inconstância não vem dos altos e baixos de uma vida (quase) inteira comprimida em menos de duas horas, mas da própria química interna de uma personagem que vive num outro mundo, numa outra realidade. Sharpe liga directamente a sua câmara aos “estados alterados” de Wain/Cumberbatch e, juntos, realizador e actor constroem um retrato cuidado de uma personagem onde a criatividade funcionava paredes-meias com a loucura.

No entanto: todos os engenhosos jogos de luz e cor da fotografia de Erik Alexander Wilson e a câmara nervosa do realizador correm o risco de ser apenas truques de prestidigitação visual para encher o olho. São Cumberbatch e Claire Foy (no papel da esposa que consegue “trazer” Wain à terra) quem faz a “ligação à terra”, permitindo que a “corrente eléctrica” atravesse o filme até o espectador. Veja-se toda a sequência em que Sharpe filma o encontro do casal com um pequeno gatinho órfão e, em seguida, os põe a dar um passeio de domingo com o bichano pelas paisagens da Velha Albion tornadas em féerie multicor (e que virá, mais tarde, rimar com a cena final). E é aí que A Vida Extraordinária de Louis Wain ganha uma extraordinária comoção que não mais nos largará até ao fim de um filme que começa como uma excentricidade muito british para terminar, quase sem darmos por isso, num nó de garganta apertado. Surpresa, com S maiúsculo.

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