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Crítica

Balada policial na Normandia

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

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Naquele que é, de longe, o seu melhor filme (Dos Homens e dos Deuses, que no princípio da década passada deu também um dos últimos grandes papéis de Michael Lonsdale), Xavier Beauvois filmava um grupo de homens, monges num mosteiro ocupado por terroristas, que reconhecia na aceitação sacrificial de um destino (ou do Destino) a derradeira possibilidade de paz (ou da Paz). Em Albatros, num contexto narrativo bastante diferente, tacteamos questões semelhantes, e a ideia do destino é discretamente mencionada num dos primeiros diálogos, na cena em que o protagonista (um óptimo Jérémie Rénier) recebe em legado a miniatura de um barco, o Albatros, que pertenceu ao pai ou avô (enfim, salvo distracção nossa, a relação familiar não é explicitada). Esse Albatros, ou um seu correspondente em versão real e escala 1/1, será, na segunda parte do filme (aquela que é de algum modo a adaptação do poema de Coleridge a que Beauvois foi buscar o “albatroz”), o veículo da aceitação do seu destino por parte de Rénier. A questão é saber se Beauvois é cineasta capaz de aguentar um filme nessa busca de um sublime, e se consegue materializá-lo à nossa frente.

Resposta rápida, não consegue. É por isso que o filme é muito melhor durante toda a primeira parte, até ao “momento fatal” que lhe muda a agulha e o lança na epopeia expiatória de Rénier, entre fantasmas e as águas do Canal da Mancha. É um lugarejo da Normandia e o protagonista é um gendarme. Com a sua equipa (onde se integra, por exemplo, o neto de Jean-Paul Belmondo, Victor), passa os dias a acorrer a pequenas e grandes delinquências, miúdos apanhados a andar de moto sem capacete ou suspeitas de abuso de menores. Às vezes (boa cena, praticamente a abrir) vem um parisiense atirar-se dos penhascos sobre a praia. E depois, há sempre problemas com os agricultores e os trabalhadores agro-pecuários, em permanente estado de revolta (contra a “Europa”, contra o Estado, contra tudo), num termómetro da “conflituosidade social” da França profunda. A primeira metade do filme, espécie de zapping (cenas rápidas, indicativas, como uma Balada de Hill Street transposta para Etretat, a aldeia normanda onde tudo se passa e onde Beauvois tem residência) por situações deste género, parece almejar ao mosaico da vida na França rural, sentir o pulso ao território, investigar os caminhos que levam às Le Pens e aos “coletes amarelos” (sempre sem sublinhados nem anúncios de declaração de intenções, o que muito ajuda à sua eficácia). No centro disto, a polícia e os polícias, a mais ambígua das instituições, sempre entre dois fogos. Como o BAC Nord de Cedric Jiménez (ainda se deve poder ver na Netflix), noutra extremidade de França (Marselha), Albatros também parece explorar a ideia, politicamente ambígua (e interessante por isso mesmo), do polícia-mártir — outra boa cena, aquela em que, depois de fazer uma asneira motivada pelas melhores intenções, Rénier, com o seu uniforme azul entre todos os outros uniformes azuis, é “recolhido” como se recolheria um exemplar defeituoso de uma linha de “robots”.

Mas essa cena também é aquela em que o filme “recolhe” e passa a um território onde um desejo de romantismo sombrio serve de moldura ao trajecto expiatório do protagonista, rumo à aceitação de si próprio, dos seus erros e da vida que tem pela frente. Não é que seja mau — o final, sem palavras, é bastante bonito — mas nunca está à altura daquilo que ele próprio procura, e se Beauvois dispõe as peças (como os puzzles que Rénier faz com a filha) para que o sublime, o milagre de um transformação interior, apareçam, eles obstinam-se em não aparecer, e em ficar apenas como expressão de uma ideia, algo que o filme queria que acontecesse mas não acontece, de facto.

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