Menu
Crítica

No quarto de Youri

Autor da crítica: Luís Miguel Oliveira

  • 1
  • 2
  • 3
  • 4
  • 5

Eis um filme capaz de injectar algum fôlego ao género do cinema de inspiração social, entre o documento da realidade e a elaboração mais ou menos romântica, e que nunca se confunde com o martelar de ideias feitas na cabeça do espectador. Gagarine, em homenagem ao famoso cosmonauta russo, era o nome de um bairro construído nos anos 60, num município dos subúrbios parisienses dirigido por uma mairie comunista, para albergar uma população constituída sobretudo por operários. Ao longo das décadas que passaram, o bairro sofreu as mutações sofridas por tantos subúrbios equivalentes, da variação demográfica (os operários deram lugar a uma população maioritariamente imigrante, vinda das ex-colónias africanas) à devastação económica, com os consequentes efeitos sociais (violência, tráfico de droga). Mas permaneceu um símbolo de uma época, que já parece longínqua, em que o idealismo esquerdista tinha um efeito não apenas transformador da realidade, mas criador de realidade, através das várias câmaras comunistas na cintura de Paris. A inserção de abundantes imagens de arquivo em Gagarine, documentando várias destas transformações, garante que o espectador do filme de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh, mesmo que nunca tivesse antes ouvido falar daquela “cité”, ficará a saber bastante sobre o lugar e a sua história.

Muito recentemente, o bairro foi demolido, depois de uma inspecção sanitária ter detectado quantidades perniciosas de amianto nos edifícios. Esta ameaça de destruição — efectivamente concretizada já depois da rodagem do filme — está na génese do filme de Liatard e Trouilh, que nele expandiram uma curta-metragem que já tinham feito sobre o assunto. São os últimos dias de um bairro, ou, mais do que isso, de uma comunidade, seguidos através de umas quantas personagens que ainda tentam o que lhes for possível para reverter o processo. Liatard e Trouilh filmam bem o bairro, a sua arquitectura, os seus edifícios, a “colmeia” das suas ruas — a espaços, embora sejam filmes que falem linguagens muito diferentes, é como um parente mais ou menos distante de No Quarto da Vanda, o filme de Pedro Costa que também captava o princípio da destruição de um bairro (o das Fontaínhas). Sempre muito próximo das suas personagens e do idealismo delas, Gagarine cruza bem o carácter “concreto” das suas imagens com uma hipótese de romantismo, sonhador e melancólico.

E aí entramos “no quarto de Youri”, o jovem protagonista negro, que sonha em ser cosmonauta, como se essa fosse a consequência natural de se habitar o “espírito” de Yuri Gagarin. Engenhosamente, o filme vai tratando a cité de Gagarine como se fizesse um documentário espacial — é ver, numa rara utilização dos planos de drone com um sentido de propósito, aquela câmara que flutua sobre as ruas e os telhados do bairro como se na ausência de gravidade — sendo certo que nos fala e nos mostra algo que é, já, de “outro planeta”. E, nessa sobreposição entre o documento e o idealismo romântico, sonhadoramente melancólico, o filme nunca se perde, como nunca se perde o seu enraizamento entre a História, o presente, e a possibilidade de um futuro para os seus jovens protagonistas. Boa surpresa.

Topo
Pesquisar
© 2011 PÚBLICO Comunicação Social SA